CANTO XIV

By José Pedro Xavier Pinheiro

De amor do pátrio ninho comovido,

Essas dispersas folhas reunindo,

À sarça as dei, que tinha a voz perdido.

Ao limite, dali, fomos seguindo,

Em que parte o recinto co’ terceiro,

Onde a justiça horrível stá punindo.

Para expressar-lhe o aspecto verdadeiro,

Eu digo que à charneca então chegamos,

De plantas nua em seu espaço inteiro.

Da dor a selva a cerca dos seus ramos,

Como o fosso a torneia sanguinoso:

Ali, rente co’a borda, os pés firmamos.

O plaino era tão árido e arenoso,

Como o que de Catão os pés outrora

Na jornada calcaram fadigoso.

Ó vingança de Deus, quem não te adora

Nos tremendos efeitos meditando,

Que eu próprio olhei, que a minha voz memora!

De almas nuas eu via infindo bando,

Por modos diferentes torturadas,

Miseráveis, mesquinhas pranteando.

Jaziam sobre o dorso umas deitadas,

Outras, dobrando os membros, se assentavam,

Muitas andavam sempre aceleradas.

Maior a turba destas se mostrava,

Menor a que, prostrada no tormento.

Maior dor nos lamentos denotava.

Largas flamas com tardo movimento

Choviam do areal em todo o espaço,

Qual neve em serra, quando é mudo o vento.

Na Índia sobre o exército, já lasso,

Fogos cair viu Alexandre outrora,

No chão ardendo livres de embaraço.

Que aos pés no solo os calquem sem demora

Suas falanges avisado ordena:

Matá-los um por um fácil lhes fora.

Assim baixava, para agravo à pena,

Lume eterno que à areia se prendia,

Como à isca a fagulha mais pequena.

Cada qual sem repouso se estorcia,

A um lado e a outro os braços revolvendo

A cada chama, que do ar chovia.

“Mestre” — falei — “que vais tudo vencendo,

Somente exceto a legião furente,

Que em Dite a entrada estava-nos tolhendo,

“Diz quem seja a grã sombra, que não sente,

Ao parecer, o incêndio, e não domado

Pela chuva, já rápido, insolente?” —

Reconhecendo o próprio condenado

Que da minha pergunta fora objeto,

“Morto sou qual fui vivo!” clama irado.

“Que Jove canse o armeiro seu dileto,

De quem tomou fremente o agudo raio

Para em mim saciar rancor abjeto;

“Que os seus cíclopes sintam já desmaio

De Mongibello na oficina negra,

Aos gritos — “Bom Vulcano, acode ou caio!” —

“Como fez na peleja lá de Flegra;

Que me fulmine de ódio e sanha cheio:

No gozo da vingança em vão se alegra”. —

Virgílio então, com voz, como não creio

Lhe ter ouvido, sonorosa e forte,

Bradou-lhe: “Capaneu, pois no teu seio

“Não mitiga a soberda a própria morte,

Sofre mor pena; igual não há castigo

Ao que a raiva te inflige desta sorte!” —

Para mim se voltou; com gesto amigo

Falou: — “Dos Reis que Tebas sitiaram

Foi um; de Deus se declarara imigo.

“Os crimes seus no inferno se agravaram;

Já disse-lhe, as blasfêmias, os furores

Digno prêmio em seu peito lhe deparam.

“Vem agora após mim; pelos fervores

Não caminhes da areia incandescente;

Da selva ao longo evitas-lhe os ardores”. —

Fomos andando, cada qual silente,

Até onde jorrar do bosque eu via

Rubro arroio, que lembro inda tremente.

Do Bulicame qual o que saía,

Das pecadoras em serviço usado:

Tal pela adusta areia este corria.

As margens e orlas são de cada lado

Feitas de pedra e assim também seu leito:

Caminho ali notei ao passo azado.

“De quanto aqui te conhecer hei feito,

Depois que atrás deixamos essa porta,

A cujo ingresso todos têm direito,

“Não se há mostrado à tua vista absorta

Maravilha que iguale a desta veia,

Em que a flama adurente fica morta”. —

O Mestre diz e assim desejo ateia

De rogar-lhe me preste esse alimento,

Que excitado, o apetite haver anseia.

“Do mar em meio jaz” — ouvi-lhe atento —

“Destruído país, Creta afamada.

Com seu rei foi do mal o mundo isento.

“Alça-se ali montanha outrora ornada

De fontes e verdor: chama-se Ida:

Erma está, como cousa desprezada.

“Foi ao filho pra berço preferida

De Réia, que abafava o seu vagido

Fazer mandando grita desmedida.

“Nas entranhas do monte um velho erguido

Está: voltando à Damieta as costas,

Como a espelho, olha Roma embevecido.

“De ouro faces e fronte são compostas,

De pura prata são braços e peito,

Eneas do busto as partes bem dispostas.

“De ferro estreme tudo o mais foi feito,

O pé direito exceto, que é de argila,

Mas o corpo sustém, sendo imperfeito.

“Salvo do ouro, do mais sempre destila

De lágrimas por fenda crebro fio,

Que fura a gruta e rápido desfila.

“Aos negros vales vem correndo em rio,

Forma Stige, Aqueronte e Flegetonte,

Desce depois neste canal esguio

“Até do inferno o fundo, aonde é fonte

Do Cocito. O que o rio acaso seja

Verás: mister não é que ora te conte”. —

— “Se desde o nosso mundo ele serpeja,

Dize, ó Mestre, a razão por que a torrente

Só neste abismo lôbrego se veja”. —

“É circular este lugar horrente,

E posto haja vencido extenso trato,

Descendo tu à esquerda, inteiramente

“Não hás feito inda ao círc’lo o giro exato.

Não revele o teu rosto maravilha.

Novas cousas em vendo e estranho fato”. —

Ainda eu perguntei: — “Por onde trilha

O Flegetonte e o Letes? De um te calas,

E do outro a veia é dessa origem filha”. —

Tornou: — “Muito me agrada quanto falas;

Da água rubra o fervor, porém, solvera

Uma dessas questões, que me assinalas.

“Do inferno fora o Letes ver espera:

Na linfa sua as almas vão lavar-se

Depois que a penitência o perdão gera”. —

Disse depois: “É tempo de deixar-se

A selva; os passos meus sempre acompanha,

Pela margem caminho há para andar-se.

Do fogo ali se extingue toda sanha”. —