CANTO XVI

By José Pedro Xavier Pinheiro

Em lugar stava já donde se ouvia

Rumor, igual de abelhas ao zumbido,

De água, que noutro círculo caía:

Eis três sombras partir vi comovido,

Correndo, de uma turba que passava

Debaixo do martírio desmedido.

Vinham a nós, e cada qual gritava:

“Detém-te; por teus trajos se afigura

Seres alguém da nossa terra prava”. —

Ah! que chagas nos membros, na figura

O fogo lhes abriu, novas e antigas!

Só recordando, eu sinto mágoa pura.

O mestre, que escutara — “Não prossigas!

Cumpre-te” — disse, o rosto me voltando, —

“Aguardando, lhes dar mostras amigas.

“Não estivesse o fogo dardejando,

Como o lugar requer, te caberia

Mais pressa do que estão manifestando”. —

Paramos. Renovando a vozeria

Um círc’lo junto a nós os três formaram,

Em que as mãos cada qual dos três unia.

Como atletas, que, nus, de óleo se untaram,

Mas, antes de lutar, dos adversários

No fraco atentam, no seu prol reparam:

Eles, se revolvendo em giros vários,

Olhavam-me em tal modo colocados,

Que os colos aos seus pés stavam contrários.

“Se a miséria, em que somos trateados,

Se o triste aspecto da tostada face

Te move a desdenhar súplices brados,

“Nossa fama o teu ânimo traspasse;

E pois, dize quem és que, ufano, o inferno

Calcas antes que a vida se finasse.

“Este, por quem os passos meus governo,

Escoriado e nu, que ora estás vendo,

Mais do que o crês no mundo foi superno.

“Da famosa Gualdrada o neto sendo,

Chamou-se Guido Guerra, e foi na vida

Por esforço e prudência reverendo.

A Tegghiaio Aldobrandi, que em seguida

Me vai, por sua voz, por seus bons feitos

Devera ser a pátria agradecida.

Eu que também da pena sofro efeitos

Jacopo Rusticucci fui: da esposa

O maior mal causaram-me os defeitos”. —

Se houvesse amparo à chuva pavorosa

(Virgílio o consentira), eu me lançara

Entre eles, da alma na expansão piedosa;

Porém naqueles fogos me abrasara,

Sobrepujou temor vivo desejo,

Que de abraçá-los súbito me entrara.

“Não desdém, mas piedade neste ensejo,

Que não se extinguira, me tem movido”

Lhes disse — “o padecer em que vos vejo,

“Tanto que o Senhor meu há proferido

Palavras, que a presença me indicaram

De almas quais sois neste lugar temido.

“Da vossa terra sou: sempre exaltaram

Meu apreço e o dos que vos conheceram

Ações que os nomes vossos tanto honraram.

“Por meu Guia veraz esperançado,

Deixo o fel por doçura permanente

Tendo primeiro o centro visitado”. —

“Que no teu corpo a vida longamente

Persista!” — a sombra disse. — “Dure a fama

Do nome teu com lume resplendente!

“Na pátria nossa inda revive a flama

Da honra, do valor, que ali brilhara,

Ou de todo a expeliu ódio que infama?

“Pois Guilherme Borsiere, que baixara,

Há pouco, e vai chorando nesta ardência,

Cruciou-nos contando o que notara”. —

“Íncolas novos, súbita opulência,

— Florença, orgulho e vícios te acenderam,

De que tu própria temes a influência!” —

Gritei alçando a fronte: e os três, que me eram

Atentos, à resposta se encararam,

Como se essas verdades lhes prouveram.

“Se tão pouco te custa” — me tornaram —

“Sempre aos outros expor teu pensamento,

Feliz tu! Vozes tais assaz te honraram.

“E, pois, voltando a luz do firmamento,

Se alfim saíres desta estância horrente,

Quando — “Lá fui!” — disseres, de contente,

“Nos olvidar não deixa a humana gente”. —

Então, rompendo o círculo, fugiram,

Como se asas tiveram, velozmente.

Em menos tempo aos olhos se esvaíram

Do que no proferir amen se gasta.

Logo aos passos do Mestre os meus seguiram.

Dali distância curta nos afasta,

Eis da água os sons ouvimos, tão de perto,

Que a voz forçar para se ouvir não basta.

Como o rio que, no álveo próprio aberto,

Em Veso nasce e vai para o oriente,

Ao lado esquerdo do Apenino, e ao certo

Aquaqueta se chama, da eminente

Parte enquanto não desce, mas, tomando

Nome diverso em Forli de repente,

Rebomba e cai pela quebrada, quando

Acerca-se a S. Bento, o grão mosteiro

Que dar a mil pudera asilo brando:

Assim desde um penhasco sobranceiro

Da água rubra troava alto estampido,

Que fora de surdez risco certeiro.

De uma corda eu me achava então cingido

Com que outrora prender quis a pantera,

De pêlo em malhas várias repartido.

Que a tirasse Virgílio me dissera:

Eu descingi-me presto, lha entregando

Enrolada, como ele prescrevera.

Então ele à direita se voltando,

A distância da borda alcantilada

Lançou-a longe para o abismo infando.

— “Àquela ação não de antes praticada,”

— Pensei — “há de seguir-se estranho efeito,

Que do Mestre a atenção tem despertada”. —

Quanta cautela deve haver e jeito,

Tratando-se com quem vê não somente

Os atos, mas também o que há no peito!

— “Surgirá” — disse o Mestre — “brevemente

O que espero: o que tens no pensamento

Logo aos teus olhos ficará patente.”

Verdade, que pareça fingimento,

Evita proferir homem discreto:

Sofre desar, de culpa estando isento.

Nada posso omitir, leitor dileto:

Desta comédia pelos cantos juro

(Sejam assim de longo aplauso objeto!)

Que subir por aquele ar grosso, escuro

Nadando vi figura temerosa

Ao peito mais intrépido e seguro:

Tal quem desceu pela onda perigosa

A desprender de ocultos embaraços,

Lá no fundo, a fateixa vagarosa,

Subindo, encolhe as pernas, tende os braços.