CANTO XVIII

By José Pedro Xavier Pinheiro

Tem o inferno, de rocha construído,

De férrea cor, de muro igual cercado

Um lugar: Malebolge o nome havido.

Lá no centro do plaino inficionado

Se escancara grão poço, amplo e profundo:

Direi a compostura em tempo asado.

Espaço em torno estende-se rotundo

Entre o poço e o penhasco pavoroso:

Reparte-se em dez cavas o seu fundo.

Qual de fossos dobrados, cauteloso,

Se apercebendo, o alcáçar se assegura

Dos assaltos de imigo poderoso:

De abismos tais o aspecto se afigura.

Como da levadiça ponte entrada,

Aos de fora, do mundo na cintura,

Assim, do val no fundo começada,

Cada cava uma rocha atravessava

Em arco, para o poço concentrada.

De nós o monstro aqui se descargava:

À sestra mão seguiu logo o poeta,

E eu de perto fiel o acompanhava.

Novo tormento à destra me inquieta,

Novos algozes vejo, novas dores,

De que a primeira cava era repleta.

Stão lá no fundo nus os pecadores:

Do meio contra nós muitos caminham,

Outros conosco, em passos já maiores.

Em Roma, assim, às turbas, que se apinham

Do jubileu no tempo, sobre a ponte

Se abriu aos que iam trânsito e aos que vinham:

De um lado andavam, os que tendo em fronte

O castelo, a S. Pedro se endereçam,

E do outro lado os que iam para o monte.

Daqui, dali nas bordas, os apressam

Cornígeros demônios, açoitando

Com grandes azorragues, que não cessam,

Como aos golpes primeiros cada bando

Se apressa! Como cada qual evita

Que se repita o estímulo execrando!

Nesse andar minha vista num se fita,

Da parte oposta vindo, e logo eu disse:

— “Hei conhecido esta figura aflita”. —

Atentei mais, por que melhor o visse;

Deteve-se comigo o doce Guia

E deu que atrás o passo eu dirigisse.

Aos olhos esquivar-se-me queria,

Os seus baixando; mas foi vão o intento.

—“Tu, que te curvas, já te hei visto um dia.

“Se as feições não mudou-te o passamento

Venedico tu és Caccianemico.

Por que trato padeces tão cruento?” —

— “De mau grado o que exiges significo;

Mas cedo ao claro som dessa loquela,

Que à memória me traz o mundo inico.

“Eu fui aquele, que Ghisola bela

Do Marquês entreguei ao vil desejo:

Ora a verdade a minha voz revela.

“Comigo de Bolonha muitos vejo;

Com tantos nesta cava choro e peno,

Que a menos lá no mundo dá-se ensejo.

“De dizer sipa entre o Savena e o Reno,

Se a prova queres, lembra-te somente

De que em nós da avareza influi veneno”. —

Mas um demônio o atalhou. Furente,

Disse tangendo: — “Ó rufião, avante!

Mulher não há que vendas impudente!” —

Ao Mestre me tornei; — pouco distante

Era um rochedo, a que nos acercamos;

Da riba se elevava pra diante.

Assaz ligeiramente nos alçamos;

Fomos pela fragura à mão direita

E o eterno recinto assim deixamos.

Chegados onde a curva estava feita

Para passagem dar aos fustigados,

O sábio Guia disse: — “A face espreita

“Agora desses outros malfadados,

Em que ainda atender não conseguiste,

Porque não stavam para nós voltados”. —

Da antiga ponte divisamos triste,

Longa fileira: contra nós andava.

Cruel açoite em flagelar persiste.

Virgílio, quando eu nada perguntava,

— “Repara bem” — me diz — “na sombra altiva,

A quem pranto de dor faces não lava.

“De Rei conserva a majestade viva!

É Jasão: conquistou por força e manha

O velocino em Colcos fera e esquiva.

“A Lenos foi, depois que horrenda sanha

Feminil aos varões cortara a vida,

Nenhum poupando aquela fúria estranha.

“Ali, de amor no enlevo embevecida,

Hipsífile enganou, que já iludira

Suas irmãs, de compaixão movida.

“Grávida e só deixou-a: atroz mentira

Mereceu-lhe dos tratos a amargura.

Vingada está Medéia, a quem traíra.

“Quem perjurou como ele, há pena dura.

Do val primeiro baste o que sabemos

E de quantos aqui sofrem tortura”. —

Numa estreita vereda já nos vemos,

Que co’a borda segunda se cruzava,

Sustentando outra ponte, a que tendemos.

Turba dali ouvimos, que chorava

De outra cava no encerro e que, assoprando,

Com suas próprias mãos se arrepelava.

Estava-lhe as paredes incrustando

A exalação que sobe e ali se prende.

Ferindo o olfato e a vista horrorizando.

E tanto pelo abismo a cava estende,

Que só divisa quando está no fundo

Quem lá do cimo, perscrutando, atende.

Subimo-nos: então no fosso imundo

Vi gente em tal cloaca mergulhada,

Que a sentina figura ser do mundo.

Enquanto olhava ali tão conspurcada

Cara notei, que distinguir não pude,

Se padre ou leigo fora a alma danada.

— “Dizei por que tua vista não se mude

De mim, a imundos tantos desatenta!” —

Gritou-me. — E eu: — “Se a mente não me ilude,

“Te vi sem cabeleira tão nojenta.

Alessio Interminei de Lucca hás sido:

Em ti por isso a vista é mais atenta”. —

Ferindo a face, disse-me o descrido:

— “Aqui lisonjas vis me submergiram;

Língua indefessa em bajular hei tido”. —

Logo depois que vozes tais se ouviram,

Meu Guia: — “Olhos dirige um pouco avante,

E as feições me declara se atingiram

“De mulher desgrenhada e petulante

Que de unhas asquerosas se lacera,

Mudando de postura a cada instante.

“É Taís, a meretriz, que respondera

Ao namorado seu, quando dizia:

— “Te devo gratidão?” — “Muita e sincera!” —

Mas vamos: temos visto em demasia”. —