CANTO XXI

By José Pedro Xavier Pinheiro

Assim, de ponte em ponte, discursando

Do que nesta comédia se não cura,

De outro arco acima nos subimos, quando

Detemo-nos por ver a cava escura,

Por ouvir de outros prantos vão sonido;

Com pasmo olhei a hórrida negrura.

No arsenal de Veneza, derretido

Como referve o pez na estação fria

Para reparo ao lenho combalido,

Incapaz de vogar: qual com mestria

Baixel novo constrói; qual alcatroa

O que teve em viagens avaria;

Qual pregos bate à popa qual à proa;

Qual remos faz, qual linho torce ou parte;

Qual mezena e artemão aperfeiçoa:

Assim, por fogo não, por divina arte

Betume espesso, ao fundo refervia,

As bordas enviscando em toda parte.

Mas no pez só na tona eu distinguia

Borbulhão, que a fervura levantava,

Que ora inchava, ora rápido abatia.

No fundo enquanto os olhos eu fitava,

Exclamando Virgílio: — Eia! Cuidado! —

Para si donde eu era me tirava.

Voltei-me então como homem, que apressado

É por saber o que fugir convenha,

De súbito pavor sendo atalhado,

Olha sem que por isso se detenha,

E logo atrás de nós eu vi correndo

Negro demônio sobre aquela penha.

Ah! que aspecto feroz! Ah! quanto horrendo

Nos meneios parece e temeroso,

Veloz nos pés e as asas estendendo!

No dorso agudo e enorme um criminoso,

Escarranchado, em peso, carregava:

Dos pés prendia o nervo ao desditoso.

— “Malebranche!” já perto ele bradava —

— “Eis um dos anciões de S. Zita!

Mergulhai-o, pois torna à gente prava,

“Que nessa terra em grande soma habita.

Venais todos lá são menos Bonturo.

O no, por ouro, lá se muda em ita“.

Ao pez o arroja, e pelo escolho duro

Se torna: após ladrão tanto apressado

Não vai mastim, que estava antes seguro:

O maldito afundou; surdiu curvado.

Sob a ponte os demônios lhe gritaram:

— “Não acharás aqui Vulto Sagrado,

“Nem banhos, quais no Serchio se deparam.

Se não queres no pez star imergido.

A te espetar as fisgas se preparam”. —

Com croques cem mordendo esse descrido

— “Bailar” — disseram — “deves bem coberto;

Se puderes furtar, furta escondido”. —

Tal ordem em cozinha o mestre esperto

Aos ajudantes seus que na caldeira

Mergulhem naco à tona descoberto.

— “Por que” — falou-me o Guia — “alguém não queira

Molestar-te em te vendo, busca abrigo:

Num recanto o acharás desta pedreira.

“Não temas que me ofenda o bando imigo;

Muito bem sei como o furor lhe afronte;

Já venci de outra vez igual perigo”. —

Até o extremo então passou da ponte;

Mas, quando a sexta borda já subia,

Mister lhe foi mostrar serena fronte.

Qual fremente matilha, que se envia

Ao pobre, quando pára esbaforido

E pede alívio à fome que o crucia:

De baixo arremeteu-lhe o bando infido,

Aceso em ira, os croques seus brandindo.

Mas gritou-lhes: — “Nenhum seja atrevido!

“Os croques suspendi: até mim vindo

Me preste algum de vós atenção toda.

Fere, se ousais porém antes me ouvindo”.

Clamaram todos: — “Ouça — o Malacoda!”

Enquanto os mais ficavam no seu posto,

— “Que queres?” — disse alguém que sai da roda;

E o Mestre: — “És, Malacoda, a crer disposto

Que as ameaças vossas superasse

Para aqui vir, se por celeste gosto

E supremo querer não caminhasse?

Deixa-me ir; pois a lei divina ordena.

Que eu nesta agra jornada outrem guiasse”.

De Malacoda o orgulho já serena;

Aos pés lhe cai o croque; aos ais voltado

Lhes disse: — “Este não pode sofrer pena”.

E o Mestre me falou: — “Tu, que abrigado

Estás entre os penedos cauteloso,

Volve a mim, do temor descativado”.

Corri para Virgílio pressuroso.

Eis os demônios todos investiram:

Roto o concerto, pois, cria ansioso.

De Caprona os soldados, que saíram

A partido assim vi que estremeciam,

Quando envoltos de imigos se sentiram.

Nos sevos gestos seus se me prendiam

Os olhos, e a Virgílio vinculado

Os braços o meu corpo todo haviam.

Os croques inclinados: — “No costado

Fisguemo-lo” — entre si dois prorromperam.

E os outros: — “Oh! pois não! seja espetado!”

Ao que o Mestre falava desprouveram

Palavra tais, e então bradou depressa:

“Sê quedo, Scarmiglione!” — Emudeceram.

Depois assim nos disse: — “Andar por essa

Rocha não podereis; jaz destruído

Todo arco sexto sem restar-lhe peça.

Se avante quereis ir, seja seguido

Desta borda o caminho: não distante

Está rochedo ao passo apercebido.

“Ontem, cinco horas mais do que este instante

Mil e duzentos com sessenta e seis

Anos houve: é então a rocha hiante.

“Dos sócios meus na companhia ireis;

Vão ver se alguém ao banho quer furtar-se.

Ide em paz: molestados não sereis.

“Calcabrina, Alichino vão juntar-se

Com Cagnazzo, a decúria comandando

Barbariccia! E não podem separar-se

“Droghinaz, Libicocco, deste bando!

Graffiacane, o dentudo Ciriatto,

Farfarel, Rubicante vão marchando!

“Na ronda cada qual se mostre exato!

Sejam a salvo os dois encaminhados

Da ponte ao arco até agora intato!”

“Que vejo, ó Mestre!” — eu disse — “Acompanhados!”

Se sabes ir só, vamos prontamente;

De guias tais dispensam-se os cuidados.

“Se tu és, como sóis, Mestre, prudente,

Não vês que os dentes seus estão rangendo,

Que nos encaram com furor crescente?”

“Não temas” — disse o Mestre, respondendo —

“Ranger os dentes deixa-os a seu gosto:

É contra os que ardem lá no pez horrendo”.

À sestra os dez então fizeram rosto;

Nos dentes cada qual mostra primeiro,

Por mofa a língua ao cabo já disposto;

E ele trompa fazia do traseiro.