CANTO XXII

By José Pedro Xavier Pinheiro

Marchar vi cavaleiros à peleja,

Travar luta, enlear-se no combate

E até pedir à fuga que os proteja;

Em vossa terra esquadras dar rebate

Vi, Aretinos; vi as cavalgadas,

Torneios, juntas no mavórcio embate,

De tubas ao clangor, às badaladas,

Com sinais de castelos, de tambores,

Com artes novas ou entre nós usadas:

Não vi mover peões, nem corredores,

Nem baixéis, que regula a terra ou estrela,

De igual clarim aos sons atroadores.

Com dez demônios (que companha bela!)

Partimo-nos, porém rezar com santo,

Urrar com lobos discrição revela.

Minha atenção no pez se engolfa, entanto,

Por saber quanto encerra a negra cava,

Ali quem pena, quem derrama pranto.

Como o delfim, que da tormenta brava

O nauta avisa, o dorso recurvando,

Presságio do mau tempo, que se agrava.

Um lenitivo à pena, assim, buscando,

Mostrava o tergo algum dos condenados,

Qual relâmpago, logo se esquivando.

Como à borda de charcos enlodados

A fronte deixa à rã ver da água fora,

Pernas e corpo tendo resguardados:

Assim no pez a gente pecadora.

Mas, Barbariccia próximo já sendo,

Na resina se esconde abrasadora.

Eu vi (e ainda agora estou tremendo!)

Em cima retardar-se um desditoso

Qual rã, que fica, as mais desparecendo.

Perto ali stava Grafiacane iroso:

Fisgou-o na enviscada cabeleira,

E alçou, qual lontra, ao ar o criminoso.

Sabia os nomes da caterva inteira;

Ouvindo-os, atentei nos escolhidos:

Distingui-los podia de carreira.

“Eia! depressa os teus ferrões compridos

No costado lhe crava, ó Rubicante!”

Os demônios gritaram-lhe incendidos.

“Ó Mestre” — disse — “inquire insinuante

Quem seja aquele mísero e mesquinho

Que em mãos caiu da turba petulante”.

Moveu-se o Mestre e, à cava já vizinho,

Perguntou-lhe em que terra ele nascera.

— “Em Navarra” — tornou-lhe — eu tive o ninho.

“De um fidalgo ao serviço me pusera

Minha mãe, quando o pai meu devastara

Fazenda e a própria vida com mão fera.

“D’El-rei Tebaldo eu na privança entrara:

Vendia os seus favores fraudulento;

Sofro a pena do mal, que praticara”.

Então os dentes lhe cravou cruento,

De javardo quais presas, Ciriatto:

Armam-lhe a boca, servem de instrumento:

Nas mãos de imigo seu caíra o rato:

Barbariccia, entre os braços o estreitando,

— “Alto!” — lhe diz — “A mim cabe seu trato”.

E o rosto para o Mestre meu voltando,

Falou: — “Pergunta, se ainda mais desejas

Antes que o tenha lacerado o bando”.

“Algum dos pecadores, com quem stejas”

Virgílo interrogou — “Latino há sido?”

Tornou: — “Vou contentar-te no que almejas.

“No pez deixei alguém por tal havido...

Ah! não temera, estando lá coberto,

Ser de unhas e farpões ora ferido”.

— “É demais!” — Libicocco diz, que perto

Estava; e um braço ao triste dilacera,

Do croque ao golpe, aquele algoz esperto.

Às pernas Draghignaz também quisera

Do mísero investir; o cabo iroso

Acesos olhos volve e os dois modera.

Cessa um pouco o rumor e pessuroso

Pergunta o Mestre àquela sombra aflita,

Que do golpe olha o efeito doloroso:

“Quem foi essa alma, como tu prescita,

Que, por vires à tona, hás lá deixado?”

Responde o pecador: — “Foi Frei Gomita

De galura, nas fraudes consumado

Que do seu amo a imigos poupou dano,

E, traidor, foi por eles premiado.

“Por ouro os deixou ir, como de plano

Confessa; e em tudo o mais provou ter foro

Nas tretas, ser nos dolos soberano.

“Miguel Zanche, o Juiz de Logodoro,

Com ele ostenta, em práticas frequentes

De crimes, em Sardenha, o seu tesouro.

“Ai! vede como esse outro range os dentes!

Iria por diante; mas receio

Na pele a fúria dos ferrões pungentes”.

Atenta o cabo de olhos no meneio

Com que a ferir se apresta Farfarello.

“Vai daí!” — lhe gritou — “pássaro feio!”

— “Se Toscanos, Lombardos tens anelo

De ver e ouvir” — o triste prosseguia —

“Traça darei, com que satisfazê-lo.

Suspendam Malebranche essa porfia;

Não temam sócios meus dura vingança,

Que eu, sentado, um só não, muitos faria

“De lá surdir, segundo a nossa usança,

Ao sinal de assovio, que de ausente

Perigo ao vir à tona dá fiança”.

Cagnazzo alça o focinho, de repente,

E, abanando a cabeça, diz — “Cuidado!

Astúcia é por lançar-se ao pez fervente”.

Ele, que em cópia ardis tinha guardado,

Tornou: — “Sutil astúcia, na verdade,

Causar aos meus tormento redobrado!”

Dos outros contra o aviso, por vaidade,

Alichino lhe disse: — “Se abalares,

Não provarei de pés agilidade,

“Hei de, voando, te agarrar nos ares.

Vamos do cimo e à riba retiremos:

Maravilha, se a tantos enganares!”

Leitor, logração nova contemplemos.

Já todos volvem de outro lado a vista:

Quem mais avesso assim primeiro vemos.

O Navarro estudara-o como invista;

E arrancando, de súbito, ao betume

Se arroja e a liberdade então conquista.

Da afronta sentem todos o azedume,

Inda mais quem motivo dera ao feito,

Gritando: — “Preso estás!” — salta do cume,

Porém do medo se avantaja o efeito

Ao das asas: um baixa ao fundo presto,

No ar sustém-se o outro, alçando o peito.

Assim mergulha o pato na água lesto,

Quando avista o falcão: perdida a presa,

Se torna o caçador cansado e mesto.

Calcabrina, da raiva na braveza,

Após o sócio voa, por ter briga,

Se a alma como deseja, vence empresa.

Vendo que ao fundo o malfeitor se abriga,

As garras volta contra o companheiro:

Furor à luta sobre o lago o instiga.

As unhas o outro, gavião ligeiro,

Lhe crava e, entrelaçando-se espantosos,

Tombam ambos no pez, de corpo inteiro.

Separa o grão fervor os dois raivosos;

Em vão, porém, subir-se pretenderam,

Que as asas prendem borbulhões viçosos.

Os outros vendo o caso, se doeram:

Envia quatro o cabo diligente;

E de croques armados acorreram.

De um lado e de outro chegam velozmente.

Tendem farpões aos sócios enviscados,

Cozidos já naquela crusta ardente,

E desta arte os deixamos atalhados.