CANTO XXIII

By José Pedro Xavier Pinheiro

Em silêncio, a companha má deixada,

Seguíamos, após um do outro andando,

Como frades menores em jornada.

Meu pensamento à rixa se voltando,

A fábula de Esopo relembrava,

Em que ao rato arma a rã laço nefando.

Se aqueles casos dois eu confrontava,

Como issa e mo, iguais me pareciam,

Quando o princípio e fim seus recordava.

E, como os pensamentos se associam,

Outros logo daquele me brotaram,

Que em dobrado temor a alma envolviam.

Pensava: — esses demônios que passaram,

Por causa nossa, tal vergonha e dano,

Do fato certamente se enojaram.

Se a maldade agravar rancor insano,

Eles no encalço nos virão ferozes,

Qual cão, que a lebre aboca enfim no plano.

Aguardando os horríficos algozes,

Arrepiam-se as carnes e o cabelo.

— “Ó Mestre meu, as garras temo atrozes!”

Exclamo: — “Ache depressa o teu desvelo

Para nós contra o bando amparo e abrigo.

Após os passos nossos cuido vê-lo”.

“Se espelho eu fora, a imagem tua, amigo,

Tanto não refletira claramente,

Quanto às idéias na tua alma sigo.

“Agora iguais me estão surgindo à mente,

Concordes tanto nas feições, em tudo,

Que um parecer entre ambos há somente.

“À destra inclina a encosta, ou eu me iludo:

Por lá baixando à mais vizinha cava,

Teremos contra assaltos seus escudo”.

Não acabava, quando a turba prava

Assoma: de asas pandas se enviando

Contra nós, não mui longe a divisava.

De súbito nos braços me tomando,

Qual mãe, que ao despertar se vê cercada

De furiosas flamas, e, apertando

Ao seio o filho, foge acelerada,

E ao pudor véus esquece angustiosa,

Só por salvar aquela prenda amada:

Lá do cimo da riba alta e fragosa

Resvala o Mestre pela penha dura,

Muralha de outra cava tenebrosa.

Água não corre mais veloz da altura

Por canal a impulsar de engenho a roda,

Quando, vizinha aos cubos, se apressura,

Do que a descer o Guia meu se açoda,

Como a filho estreitando-me ao seu peito,

Não como a companheiro a quem se engoda.

Da cava, apenas atingira o leito,

Quando ao cimo os demônios se mostraram:

Mas de iras suas malogrou-se o efeito.

Por lei da Providência terminaram

Funções, que exercem na caverna quinta,

Toda vez que o recinto seu deixaram.

Gente, que de brilhante cor se pinta

Vemos, que a tardo passo em torno andava;

Chorava e em forças parecia extinta.

Capa e capuz trazia, que ocultava

Seus olhos, dessa forma de vestidos

De Colônia entre os monges mais se usava.

De ouro por fora, dentro guarnecidos

De chumbo: comparando a peso tanto,

De palha os de Fred’rico eram tecidos.

Por toda a eternidade, ó duro manto!

Com tais almas, à sestra, caminhamos,

Atentos escutando o triste pranto.

Tanto as oprime o peso, que as passamos

No lento caminhar; e a cada instante

De nova companhia ao lado estamos.

“Mostra-me — eu disse ao Guia, suplicante —

Algum por nome ou feitos afamado;

Busca, sem te deter, Mestre prestante!” —

Tendo vozes toscanas escutado,

Um atrás nos gritou: — “Cessai da pressa,

Com que ides a correr pelo ar cerrado!

“Cousa talvez direi, que te interessa”.

Volta-se o Mestre e diz-me: — “Agora espera;

Para o passo igualar-lhes não te apressa”.

Cessando, vejo um par que se acelera;

Seus gestos dizem que acercar-se aspiram,

Malgrado a estrada e o peso, que os onera.

Aqueles dois, já próximos, remiram

Com vesgos olhos, sem falar, meu rosto;

Depois entre eles vozes tais se ouviram:

“O que respira ainda em vida é o posto?

Se mortos ambos são, por que motivo

Da plúmbea capa evadem-se ao desgosto?”

E disseram: — “Toscano, que, inda vivo,

Vens de hipócritas ver o grêmio triste,

Dizer quem sejas, não recusa esquivo”.

— “Nasci na grã cidade, à qual assiste

Com suas belas margens o Arno ameno,

E o corpo, em que hei crescido, lá persiste.

“Quem sois que da aflição tanto veneno

Na face amargo pranto denuncia?

Qual penar tendes de esplendor tão pleno?”

“Tanto chumbo se encobre” — um me dizia —

Destas capas sob o ouro, que oscilamos,

Qual balança, que ao peso hesitaria.

“De Bolonha e Godente, nos chamamos

Um Loderigo e o outro Catalano:

Juntos ambos Florença governamos,

“Por que ficasse a paz livre de dano.

Em vez de um regedor; do que hemos sido

O Gardingo dá prova e desengano”.

“Ó irmãos” — comecei — “o mal nascido...”

Atalhei-me: jazendo um condenado

Com puas três em cruz via estendido.

Em vendo-me estorceu-se angustiado.

Altos suspiros arrancou do peito.

Catalano acercou-se apressurado.

“Este” — disse — “que geme em duro leito,

Que a um homem dessem morte, aconselhara

Aos Fariseus, do povo por proveito.

“Através do caminho é nu, repara:

De quem passa, desta arte, ele conhece

O peso, quando por calcá-lo pára.

“Igual martírio o sogro seu padece,

Assim como cada um desse concílio,

Semente pra os Judeus de horrenda messe”.

Maravilhar-se então mostrou Virgílio,

Posto em cruz o prescito contemplando

Com tanto opróbrio lá no eterno exílio,

Voltou-se a Catalano assim falando:

“Dizei, se assim vos praz e é permitido,

Se à direita há vereda, onde, passando,

Deste recinto vamo-nos temido,

Sem que os anjos perversos obriguemos

Caminho a nos mostrar não conhecido”.

Tornou: — “Mais perto do que julgas temos

Rochedo, que, do muro se estendendo,

Dá ponte a cada val, em que gememos.

“Este não cobre, outrora se rompendo;

Mas subir podereis pela ruína,

Que do declive ao fundo se está vendo”.

Ouvindo, o Guia um pouco a fronte inclina

E diz: — “Bem más explicações nos dava

Quem tanto os pecadores amofina”.

Logo o frade: “Em Bolonha me constava

Que o demônio, entre os vícios com que stenta,

De ser pai da mentira se ufanava”.

A passo largo o Mestre já se ausenta;

Ira ressumbra o rosto carregado.

Deixa a turba, que em capas se atormenta,

As pegadas seguindo-lhe apressado.