CANTO XXIV

By José Pedro Xavier Pinheiro

Naquela parte do ano incipiente,

Em que as comas do sol se fortalecem

No Aquário, e a noite iguala o dia ausente,

Quando as geadas matinais parecem

Da alva irmã figurar a imagem pura,

Mas tais feições em breve se esvaecem.

Campino, que a indigência já tortura,

Ergue-se, e vendo o prado embranquecido.

No coração calar sente a amargura.

Torna ao tugúrio e carpe-se abatido,

Como quem toda a esp’rança já perdera;

Mas vendo em breve o campo estar despido

Do triste manto, o alento recupera.

Revigorado então, corre ao cajado

E as ovelhas ao pascigo acelera.

De temor me senti, dessa arte, entrado

Do mestre merencóreo ante o semblante;

Mas logo ao mal foi bálsamo aplicado.

À ruína chegamos: nesse instante

Virgílio volve àquele doce gesto,

Que eu da colina ao pé vira ofegante.

Reflete um pouco, o estado manifesto

Da rocha examinando: eis-me, estendendo

Os braços, resoluto ergueu-me presto.

Como aquele que uma obra entre mãos tendo.

Logo noutra tarefa põe o intento,

Num rochedo Virgílio me sustendo,

Já de outro acima me avisava atento.

“Mais alto agora sobe” — me dizia —

“Vê se a rocha está firme! Toma tento!”

De capa ali ninguém transitaria;

Pois nós, leves e eu sempre transportado,

Subíamos a custo a penedia.

Se mais alto o declive do outro lado

Não fora do que esse outro, em que ora estamos,

— Dele não sei — ficara eu lá prostrado.

Que Malebolge inclina-se notamos

À boca enorme do profundo poço;

As encostas, são tais — expr’imentamos —

Que uma é baixa, outra excelsa em cada fosso.

Vimos, enfim, do topo à roca extrema,

Dessa ruína ao último destroço.

Lá chegado, afã tanto o peito prema,

Que avante um passo dar eu mais não pude;

Sentei-me então na inanição suprema.

“Eia! toda a fraqueza em ti se mude!

Em ócio” — disse o Mestre — “ou sobre a pluma

Prêmios ninguém conquista da virtude.

“Aquele que a existência assim consuma,

Tal vestígio de si deixa na terra,

Como o fumo no ar e na água a espuma.

“Ergue-te, pois! Torpor de ti desterra!

Recobra o esforço que os perigos vence!

Impere alma no corpo em que se encerra!

“Que vais subir muito alto a mente pense;

Desse abismo não basta haver saído.

Será teu prol, se a minha voz convence”.

Alço-me então, mostrando-me impelido

De alento, que não tinha; e ao Mestre digo:

“Avante! Forte já me sinto e ardido!”

Pela rocha asperíssima prossigo

Mais estreita, inda menos acessível

Que a outra: os passos de Virgílio sigo.

Por provar-me às fadigas insensível

Falando andava. Eis ouço de outra cava

Ressoar voz bem pouco perceptível.

O que disse não sei, posto me achava

Da ponte sobre a parte culminante;

Mais parecia iroso quem falava.

Curvei-me para ver no fosso hiante,

Mas alcançar não pude o fundo escuro.

Ao Mestre disse então. “Se apraz-te, avante

Passando, desceremos deste muro;

Daqui ouço uma voz, mas não a entendo;

Fito os olhos, mas nada me afiguro”.

“Respondo aos teus desejos, acedendo;

Que o pedido discreto assim declaro

Se cumpre, não falando, mas fazendo”.

Fomos da ponte à parte, donde é claro

Que se vai ter à ribanceira oitava:

Ficou patente a cava ao meu reparo.

De serpes tal cardume se enroscava,

Horríficas na infinda variedade,

Que ao sangue, inda ao lembrar, terror me trava.

Não tenha a Líbia de criar vaidade,

De quersos, fares, cencris no seu seio

E anfisbenas, tamanha quantidade.

Nem do mar Roxo em plagas, nem no meio

Da Etiópia, tropel tão pavoroso

De flagelos jamais a lume veio:

Por entre o enxame atroce e temeroso

Almas corriam nuas e transidas,

Heliotrópia não sperando ou pouso.

Atrás as mãos por serpes são tolhidas,

Que, transpassando os rins, cauda e cabeça,

Lhes tinham por diante em laços unidas.

Eis uma de repente se arremessa

Ao prescito, que perto nos demora:

Morde-lhe o colo aonde a espádua cessa.

Um O traçar ou I mais custa agora

Do que ser o mesquinho incendiado:

Em cinzas cai o pecador, que chora.

Stando em terra desta arte derribado,

Juntou-se a cinza e logo reformou-se,

Como de antes, o triste condenado.

Dos sábios na escritura já narrou-se

Que a Fênix morre e logo após renasce,

Quando aos anos quinhentos acercou-se.

Viva, já nunca em cibo ela se pasce,

Em lágrimas, porém, de incenso e amono;

De nardo e mirra em ninho extremo apraz-se.

Como aquele que cai sem saber como,

Do demônio ao poder, que à terra o tira,

Ou de outra opilação sentindo o assomo;

Levantando-se, em torno a si remira,

Da angústia inda aturdido, que o mordera,

E, em seu soçobro, pávido suspira:

Assim parece o pecador, que ardera.

Contra os pecados na final vingança,

Ó Justiça de Deus, quanto és severa!

Quem fora inquire o Mestre, e dele alcança

Estas vozes: — “Há pouco, da Toscana

Chovi no abismo, onde ninguém descansa.

“Vida brutal vivi, não vida humana.

Chamei-me Vanni Fucci, híbrida besta;

Pistóia, meu covil, de mim se ufana”.

Ao Mestre eu disse: — “Referir-nos resta

O crime, que deu causa à morte sua:

Sei que em sangue banhara a mão funesta”.

O pecador, que me ouve, não se amua:

Volta-me presto a cara, em que a tristeza

Com sinais de vergonha se insinua

E diz: — “Sinto da dor mais a aspereza,

Porque em miséria tanta me vês posto,

Do que quando da morte hei sido a presa.

“Ao que exiges respondo com desgosto:

Por ter roubado alfaias e ornamento

Da igreja, aqui estou, sendo meu gosto

“Que pelo crime houvesse outro tormento.

Se deste antro saíres algum dia,

Por que não sejas do meu mal contento,

“Ouve bem o que a voz minha anuncia:

De si Pistóia os Negros expulsando,

Povo, modos, Florença então cambia.

“Vapor de Val de Magra Marte alçando,

O traz em torvas nuvens envolvido;

E, enquanto a tempestade está raivando,

“No campo de Picen será ferido

Combate; a névoa logo se esvaece;

Dos Brancos cada qual será batido.

“Sabe-o, pois: certo, a nova te entristece”.