CANTO XXIX

By José Pedro Xavier Pinheiro

Meus olhos tanto inebriado haviam

A turba enorme e o seu cruel tormento,

Que alívio em pranto procurar queriam.

“Por que assim” — diz Virgílio — “estás atento?

Por que a vista dos tristes mutilados

Prende-te ainda o duro sofrimento?

“Tal não fizeste em antros já passados.

Estão, se os resenhar é tenção tua,

Por milhas vinte e duas derramados.

“Já sob os nossos pés evolve a lua;

É-nos escasso o tempo concedido:

O que ainda hás de ver detença exclua”.

“Talvez se houveras” — torno — “conseguido

Ver o motivo, por que eu tanto olhava,

Mais demora tivesses permitido”.

Já se partia; e eu logo caminhava,

Enquanto assim falava-lhe em resposta,

Acrescentando: “Lá, naquela cava,

“Onde a vista cuidosa estava posta,

Da stirpe minha um spírito carpia

Por culpa, a que mor pena está disposta”.

“Não te confranjas mais” — responde o Guia —

“Nos males, que padece, cogitando.

De aí cuida; estar nesse antro merecia.

“Ao pé da ponte o vi, que, te indicando,

O dedo alçava em cominante gesto:

Geri del Bello estavam-no chamando.

“Eras absorto no semblante mesto

Daquele que senhor foi de Altaforte:

Quando atentaste, se ausentara presto”.

“Ó Mestre” — eu disse — “a violenta morte

Que ainda não punia justa vingança

De quem naquela afronta era consorte,

“Deu causa a usar, ao ver-me, essa esquivança

Talvez e ao seu silêncio: assim pensando

Maior piedade do seu mal me alcança”.

Ao rochedo chegamos praticando,

Donde outro vai divisa-se: o seu fundo

Todo se vira, a luz não lhe faltando.

Subidos do final claustro profundo

De Malebolge à ponte, onde os conversos

Já distinguia do recinto imundo.

Lamentos e ais feriram-me diversos;

De mágua tanta o peito assetearam,

Que os ouvidos tapei aos sons adversos.

Tão penetrante dor denunciaram,

Como se da Marena e da Sardenha

Enfermos no verão se incorporaram.

De outros à turba, que remédio venha

Nos hospitais buscar de Valdichiana.

Odor surdia, igual ao que já tenha

Corrupto corpo, e se gangrena o dana.

Baixando à sestra até a riva extrema

Mais claramente da caverna insana

Então vimos o fundo, onde a Suprema

Infalível Justiça, a raça ímpia

Dos falsários em pena infinda prema.

“De Egina quando o povo adoecia,

E o ar maligno aos animais a morte

Trazendo, os próprios vermes extinguia,

Deserta sendo a terra de tal sorte

Que às formigas (poetas o afirmavam)

Deveu a antiga gente o alento forte:

Cenas tais mais tristeza não causavam

Do que almas ver, que essa prisão sombria

Em rumas várias lânguidas juncavam.

Qual sobre a espalda de outro se estendia,

Qual sobre o ventre seu, qual se arrastando

Na dolorosa estrada se estorcia.

Silentes, passo a passo caminhando,

Vemos, ouvimos míseros prostrados,

Em vão para se erguerem se esforçando.

Sentados dois, um no outro recostados,

Quais torteiras que juntas se aquecessem,

Vi do alto aos pés de pústulas manchados

Os criados, que os amos seus apressem,

Ou que estejam velando de mau grado

Almofaça não vi que assim movessem,

Como cada um se agita acelerado,

Com implacáveis unhas se mordendo,

De raivoso prurido atormentado.

Iam da pele as crostas abatendo,

Como a faca do sargo arranca a escama

Ou de peixe, na casca mais horrendo.

“Ó tu” contra um dos dois Virgílio exclama,

Que os dedos teus convertes em tenazes

Por desmalhar do corpo a extrema trama,

“Diz-me se entre estas almas contumazes

Existe algum Latino; eternamente

Sejam-te as unhas de servir capazes!”

“Latinos somos” — torna diligente

Um dos dois padecentes lacrimoso,

“Mas tu quem és? Em declarar consente”.

— “Eu sou que” — diz Virgílio ao desditoso

“De círc’lo em círc’lo este homem vivo guia

Por lhe mostrar o abismo pavoroso”.

Já cessa o mútuo arrimo, que os unia:

A mim volveu-se cada qual tremendo;

Turba imitou-os, que em redor ouvia.

Acercou-se-me o Guia assim dizendo:

“Quanto quiseres tu agora dize”.

Eu logo comecei lhe obedecendo:

“Nunca a memória vossa finalize!

Na primeira mansão da humana raça!

Mas por sóis numerosos se abalize!

“Quem sois? E donde? De o dizer a graça

Fazei: a vossa pena, imunda é certo,

De responder-nos pejo vos não faça.

“De Arezzo fui” disse um “de Siena Alberto

Morte me deu nas chamas, truculento,

Por feito a que não fora o inferno aberto.

“Dissera, em gracejar só pondo o intento.

“Alçar-me aos ares posso velozmente”.

Essa arte, por ter curto o entendimento,

“Houve ele de saber desejo ardente.

Como o não fiz um Dédalo, à fogueira

Mandou-me quem seu pai foi certamente.

“Mas das cavas caí na derradeira

Por sentença de Minos rigorosa:

Foi meu crime a alquimia traiçoeira”.

E ao Vate eu disse: “Nunca tão vaidosa

Gente, pôde alguém ver como a de Siena?

Nem a de França há sido tão sestrosa!”

O segundo leproso então me acena

Dizendo: “Salvo Stricca, homem poupado,

Que todo o excesso em desprender condena!

“Salvo Nicolo, aquele que inventado

Do cravo tinha a rica especiaria,

O seu uso deixando enraizado!

“Salvo Caccia de Ascian e a companhia,

Com quem vinhas e bosques esbanjava

E o Abbagliato as chanças esgrimia!

“Para que saibas quem desta arte agrava

Contra os de Siena o teu severo asserto,

No meu triste semblante os olhos crava.

“De que ora vês Capocchio já estás certo,

Que alquimista, os metais falsificara,

Sabes como eu, se em recordar acerto,

Natura, hábil bugio, arremedara”.