CANTO XXV

By José Pedro Xavier Pinheiro

Assim dizia o roubador e, alçando

Ambas as mãos, que figuravam figas:

“Toma, ó Deus” exclamou “o que eu te mando”.

Serpes me foram desde então amigas:

Porque logo uma ao colo se enroscava,

Como a dizer: — “Não quero que prossigas!”

Tolhendo-lhe outra os braços, se enlaçava

Diante sobre o peito, e o movimento

Com rebatido vínculo atalhava.

Ah! Pistóia! ah! Pistóia! o incendimento

Teu decreto, extinguido nome impuro,

Pois dás da extirpe tua ao vício aumento!

Tão soberbo não vi no abismo escuro,

Contra Deus outro esp’rito; nem o ousado,

Que de Tebas caiu morto do muro.

Sem mais dizer fugira o condenado.

Eis rábido centauro vi correndo

A gritar: — “onde está o celerado?”

Nem tem Marema de répteis horrendo

Bando igual ao que o dorso carregava

Té onde a humana forma está-se vendo.

Na espádua, abaixo da cerviz pousava,

As asas estendendo, atroce drago,

Que fogo a quanto encontra arrevessava.

“É Caco” — o Mestre diz — “que a imane estrago

Afeito do Aventino se aprazia,

Sob as penhas, de sangue em fazer lago.

“Dos seus irmãos não segue a companhia,

Por haver depredado, fraudulento,

Armentio, que próximo pascia.

“Tiveram fim seus crimes: golpes cento

Sobre ele desfechou de Alcide a clava:

Aos dez perdera já a vida o alento”. —

Foi-se o centauro enquanto assim falava.

Abaixo eis três espíritos chegando,

Nos quais nenhum de nós inda atentava,

“Quem sois?” — romperam súbito bradando.

A Narração então suspende o Guia;

E só deles curamos, escutando.

Nenhum dessa companha eu conhecia;

Mas então, como às vezes acontece,

Um, chamando por outro, assim dizia:

“Onde é Cianfa, que assim desaparece?”

Dedo nos lábios fiz nesse momento

A Virgílio sinal, por que atendesse.

Em crer o que eu contar se fores lento,

Não há de ser, leitor, para estranhado;

Quase o que eu vi descrê meu pensamento.

Quando eu dos três a vista era engolfado,

Sobre seis pés se via uma serpente

Contra um deles e o tem todo enlaçado.

Abraçam-lhe os do meio rijamente

O ventre; aos braços aos de cima rendem,

Ambas as faces morde-lhe furente.

Os de baixo nas coxas já se estendem,

Interpondo-se a cauda, que, subindo

Por detrás, voltas dá que os rins lhe prendem.

Hera, de árvore os ramos recingindo.

Não os enleia tanto, como a fera

Alheios membros ao seu corpo unindo.

Fundiram-se depois, de quente cera

Com feitos; travando as suas cores,

Um nem outro parece o que antes era:

Como em papel, do fogo ante os ardores

Procede escura cor; inda não sendo

Negro, vão fenecendo os seus albores.

Os dois, a maravilha percebendo,

Gritavam-lhe: — “Ai! Agnel, quanto hás mudado!

Um já não és mas dois ser não podendo!”

Numa cabeça as duas se hão tornado;

Confundidos estavam dois semblantes

Num rosto, em que se haviam misturado.

São dois os braços, que eram quatro de antes,

Foram coxas e pernas, ventre e peito

Membros, que nunca hão tido semelhantes.

Perdeu-se assim todo o primeiro aspeito;

Seres dois e nenhum nessa figura

Se via; e o montro foi-se a passo estreito.

Quando o fervor canicular se apura,

Cruza o lagarto, como o raio, a estrada,

E uma mouta deixando, outra procura.

Tal menor serpe, lívida, inflamada.

Negrejando, qual bago de pimenta,

Aos outros dois se arroja acelerada.

E na parte, por onde se alimenta

Primeiro a vida nossa, um dos dois fere

E ante ele tomba em queda violenta.

Olha o ferido, mas nem voz profere;

E sobre os pés imóvel bocejava,

Como quem sono prenda ou febre onere.

Fitava olhos na serpe, e esta o encarava;

A chaga de um eu via, do outro a boca

Fumegar; e o seu fumo se encontrava.

Emudeça Lucano, quando toca

Em Sabelo infeliz mais em Nascídio.

Escute: mor portento ora se evoca.

De Cadmo e Aretusa cale Ovídio:

Se fonte a esta, àquela fez serpente,

Não o invejo: aqui há pior excídio,

Não converteu dois seres frente a frente,

Tanto que permutasse formas duas

Sua própria matéria de repente.

Desta sorte compõem-se as partes suas:

A cauda à serpe fende-se em forquilha,

Cerra o ferido em uma as plantas nuas.

Tal prisão coxas, pernas envencilha

Que em breve nem vestígio há de juntura,

Sinal, ou numa ou noutra, de partilha.

Fendida a cauda assume essa figura

Que perde o homem; numa é tão macia

A pele, quanto noutro fez-se dura.

Entrar os braços nas axilas via;

Tanto estendia os curtos pés a fera,

Quanto o outro os seus braços encolhia.

Os pés o drago extremos retorcera,

Na parte, que se esconde, se mudando,

Que em duas no mesquinho se fendera.

Enquanto o fumo os dois ia velando

De nova cor e a serpe o pêlo empresta,

Que em todo perde o pecador nefando,

Ergue-se um, cai o outro e no chão resta,

Os ímpios olhos sem torcer, que viram

Dos gestos seus a conversão funesta.

Ao que era em pé às frontes lhe subiram

Do rosto as sobras: cada face afeita

Uma orelha, de duas, que saíram.

Quanto de mais ficara então se ajeita,

O nariz conformando-lhe na cara

E de lábios lhe ornando a boca estreita,

A beiça o que jazia dilatara;

Qual caramujo, que as antenas cerra,

À cabeça as orelhas retirara.

A língua unida e no falar não perra

Partiu-se, enquanto a do outro, forquilhada,

Uniu-se; o fumo desde então se encerra.

Essa alma, que em réptil era mudada,

Pelo vale arremete sibilando,

Falando, a outra escarra e a segue irada.

Depois, seu novo dorso lhe voltando,

Disse à terceira sombra: “Corra o Buoso,

Como eu, por esta senda rastejando”.

Assim vi no antro sétimo espantoso

Mútuas transformações: tanta estranheza

Desculpe o canto rude e descuidoso.

Posto empanar dos olhos a clareza

E entrar o assombro no ânimo eu sentisse,

Não fugiram com tanta sutileza,

Nem tão prestes que eu bem não discernisse

Puccio Sciancato, que dos três somente

Fora o que transmudado se não visse,

Deu-te o outro, Gavili, dor pungente.