CANTO XXVII

By José Pedro Xavier Pinheiro

A flama já se erguia e estava quieta,

Não mais falando, e já se retirava

Com permissão do meu gentil Poeta,

Quando outra, que de perto caminhava,

Pelos confusos sons, que desprendia,

Olhar nos fez seu cimo, que oscilava.

Como o sículo touro, que mugia

A vez primeira, o pranto ressoando

Do inventor, que seu prêmio recebia;

Berrava pela voz do miserando,

Na brônzea forma, em dor tanto pungente,

Que parecia vivo estar penando:

Assim se convertia o som plangente

De flama no rumor, lhe falecendo

Caminho, em que irrompesse prontamente.

Mais se exalar pelo ápice em podendo

Dar-lhe impulso por ter já conseguido

Desse mesquinho a língua, se movendo,

“Tu, a quem me dirijo” — hemos ouvido —

“Que, inda há pouco, dizias em lombardo:

Podes ir, tens assaz já respondido.

“Posto em chegar um tanto eu fosse tardo,

De ouvir-me não despraza-te a demora;

Bem vês, me não despraz: entanto eu ardo.

“Se a este abismo tenebroso agora

Tombas saudoso dessa doce terra

Latina, onde hei pecado tanto outrora,

“Se os Romanhóis têm paz, diz-me, se guerra,

Pois eu fui lá dos montes, entre Urbino

E essa, origem do Tibre, altiva serra”.

Para escutar atento a fronte inclino.

Eis, tocando-me a um lado, diz meu Guia:

“Podes ora falar, que este é Latino”.

Eu, que já prestes a resposta havia,

Tornei ao pecador incontinente:

“Alma, que o fogo assim veste e crucia,

“Tua Romanha em guerra permanente

Sempre é no coração dos seus tiranos.

Porém nenhuma agora tem patente.

“Hoje é Ravena o que era, há longos anos,

De Polenta a águia forte ali se aninha;

Com largas asas cobre à Cérvia os planos.

“A terra, que no tardo assédio tinha

Pelo sangue francês sido inundada

Sob verde leão, sofre mesquinha.

“Dos Mastins de Verruchio a subjugada

Gente os dentes cruéis inda sentia:

Morte a Montagna deram despiedada.

“Em Lamone, em Santerno inda regia

Do alvo ninho o leão, se convertendo

De um pra outro partido cada dia.

“A cidade que o Sávio banha, sendo

Entre o plaino e a montanha, em liberdade

Ou vive ou sob o jugo vai sofrendo.

“Ora nos diz quem foste na verdade;

Condescendente sê, como hemos sido:

No mundo haja o teu nome longa idade”.

O fogo rumoreja e comovido

De um lado a outro a ponta aguda agita;

Depois emite a voz neste sentido:

“Se esta resposta minha fosse dita

A quem do mundo à luz daqui voltasse,

Queda ficara a minha língua aflita.

“Mas como é certo que jamais tornasse

Quem no inferno caiu, se não me engano,

De falar não hei medo, que embarace,

“Homem de armas, depois fui Franciscano,

Crendo pelo cordão ser emendado;

Por crê-lo certo, me esquivara ao dano,

“Se o Papa (todo o mal seja-lhe dado!)

Não me volvesse à primitiva estrada.

Como e por que te fique declarado.

“Enquanto a humana forma era habitada

Por mim, não provei ser leão por feitos,

Mas raposa, por astúcia abalizada.

“Estratégia sutil, ardis perfeitos

Tantos soube, que os âmbitos da terra

Eram à fama de meu nome estreitos.

“Da existência na quadra, em que muito erra

Quem, de surgir no porto esperançado,

Nem colhe os cabos nem as velas ferra,

“Odiei quanto houvera mais amado

E humilhei-me confesso e arrependido...

E o perdão, ai de mim! fora alcançado...

“Dos novos Fariseus Príncipe infido,

Em Latrão guerra crua declarara:

Não contra Mouro, nem Judeu descrido,

“Contra cristãos as iras ateara;

Nenhum traidor contra Acre combatera

Ou do Soldão na terra traficara.

“Sacras ordens em si não considera,

Nem cargo excelso, em mim o da humildade

Cordão, que os penitentes seus macera.

“Como foi de Sirati à soledade

Constantino a Silvestre pedir cura

Da lepra: assim também à enfermidade

“De seu febril orgulho este procura

Remédio em meu conselho. Escrupuloso

Calei-me: de ébrio vi nele a loucura.

“Fala — insistiu — não sejas temeroso!

Absolto és desde já, se Palestrino

A vencer me ensinares ardiloso.

“Eu abro e fecho o céu: poder divino

As duas chaves têm, a que há negado

O meu antecessor preço condi’no.

“Já destas razões graves abalado,

Pior partido no silêncio vendo,

Lhe tornei: — Padre Santo, se o pecado,

“Em que ora vou cair, stás-me absolvendo,

Darás ao sólio teu glória e conforto

Prometendo demais, pouco fazendo.

“Francisco me acudiu, quando fui morto;

Mas clamou anjo negro apressurado:

— Não mo tomes; assim me causas torto!

“Lugar foi-lhe entre os meus assinalado:

Dês que há dado o conselho fementido,

Ficou pelos cabelos agarrado.

“Perdão só tem quem geme arrependido;

Pecado à penitência não se amanha,

Não pode aquele andar a esta unido.

“Ai! qual foi meu pavor, quando, com sanha

Empolgando-me, disse: — Creste acaso

Que me falta de lógico arte e manha?

“A Minos me arrastou, que sem mais prazo,

Da cauda em voltas oito o dorso enreda,

Raivoso morde-a e diz: — É neste caso

“Que aos maus prisão se dá na labareda.

Assim onde me vês, fiquei perdido,

Vou chorando, em tais vestes, minha queda”.

Tendo, pois, desta sorte concluído,

Aquela flama se partiu gemendo

E agitando o seu vórtice estorcido.

Eu e Virgílio, então, seguido havendo

Pelo rochedo, ao arco nós subimos,

Que o nono fosso cobre, onde sofrendo

Os que cizânia semearam vimos.