CANTO XXX

By José Pedro Xavier Pinheiro

Quando Juno, de Semele ciosa,

Contra o sangue tebano se inflamava,

Como o provou por vezes impiedosa,

Tanta insânia Atamante perturbava,

Que a esposa ao ver, ao colo seu trazendo

Os filhos dois, que a ele encaminhava,

Gritou: “Redes tendamos! Já stou vendo

Leoa e leõzinhos da embosacada!”

Disse e, raivoso, os braços estendendo

De um, Learco, travava e de pancada

Rodou-o e o percutiu em penedia.

Ao mar lançou-se a mãe com outro abraçada

Quando a fortuna a cinzas reduzia

A pujança de Tróia, em tudo altiva,

E com seu reino o morto rei jazia,

Hécuba triste, mísera, cativa,

Depois de morta Polixena vira,

Do Polidoro seu em plaga esquiva,

Súbito quando o corpo descobrira

Uivou qual cão, de angústia possuída.

Tanto a pungente dor nalma a ferira!

Mas em Tebas ou Tróia destruída

Homens ou feras nunca revelaram

Raiva, em tantos extremos desmedida,

Como almas duas lívidas, que entraram

Nuas correndo, os dentes amostrando,

Quais cerdos, que à pocilga se esquivaram.

Uma alcançou Capocchio e, lhe cravando

No colo as presas, rábida, arrastava

Sobre o ventre na rocha o miserando.

Mas o de Arezzo, que tremendo estava

“É Gianni Schicchi” — disse — esse raivoso:

De outros a pena o seu furor agrava!”

“Possas livrar-te do outro esp’rito iroso!”

Falei — “Se não te causa assim fadiga,

Diz quem seja, antes de ir-se o furioso”.

“Aquele é” — respondeu — “uma alma antiga;

É Mirra infame, que paixão ímpia

Instigou ser do pai a sua amiga.

“Para o seu crime consumar fingia

De outra pessoa as formas e o semblante.

Igual ardil usara Schicchi um dia:

“Para em prêmio alcançar égua farfante:

Contrafez Buoso morto e ao testamento

Falso a norma legal deu, que é prestante”.

Aos dois raivosos estivera atento

Até que de ante os olhos se apartaram;

De outros volvi-me ao cru padecimento.

Num do alaúde as formas se notaram

Se as pernas lhe tivessem cerceado

Na parte, em que do tronco se separam.

Da grave hidropisia molestado,

Que tanto o humor vicia e tanto ofende,

Que o rosto estreita e faz o ventre inchado,

A boca ter cerrada em vão pretende,

Qual hético de sede ressequido.

A quem um lábio se alça e o outro pende.

“Ó vós, que ao negro abismo haveis descido

(Não sei por que razão) de pena isentos,

Olhai” — disse — “prestando atento ouvido,

“De mestre Adam miséria e sofrimentos

Tive abastança; agora, ai! desejando

De água uma gota, passo mil tormentos,

“Dos ribeiros, que ao Arno, murmurando

Do Casentino lá na verde encosta

Se vão, por moles álveos inclinando,

“Na mente a imagem sempre tenho posta.

Não em vão: mais me seca e me fustiga

Que o mal, de que esta face é descomposta.

“Quer Justiça, que austera me castiga,

Que o teatro, onde hei crimes cometido,

Mais me acendendo anelos, me persiga.

“Lá demora Romena, onde hei fingido

Em falso cunho a imagem do Batista;

Assim meu corpo o fogo há consumido.

“Se a sombra achasse aqui, se aqui já exista,

De Guido ou de Alexandre ou seu germano!

Fonte-Branda esquecera ante essa vista.

“Mas um já veio, se induzir-me a engano

Os raivosos, que giram, não quiseram.

Que importa? Para andar em vão me afano.

“Se os meus pés transportar-me inda puderam,

De um sec’lo ao cabo, espaço de uma linha,

Já postos a caminho se moveram,

“A fim de o ver na multidão mesquinha

Do val, que milhas onze em torno amplia,

Com largura, que de uma se avizinha.

“Star lhes devo em tão triste companhia:

Florins cunhei, aos três obedecendo,

Nos quais quilates três de liga havia”.

“Quem são” — lhe disse — os dois que ora estou vendo?

Quais no inverno mãos úmidas fumegam,

À destra tua próximos jazendo”.

“Já stavam quando vim: eles se entregam,

Dês que desci, a quietação completa;

E creio, assim a eternidade empregam.

“Uma acusou José, falsária abjeta,

Outro é Sinon, de Tróia o Grego tredo:

Lançam por febre essa fumaça infecta”.

Anojado um do par, que estava quedo,

Por ver em vozes tais afronta e ofensa,

À pança o punho lhe vibrou sem medo:

Soou, qual de zabumba a pele tensa.

O braço Mestre Adam lhe envia à face

E assim lhe dá condi’na recompensa.

“Inda que” — disse — os membros meus enlace

Moléstia, que me tolhe o movimento,

Presteza a destra tem, com que rechace”.

“Foste” — o outro tornava — “mais que lento

Quando forçado ao fogo caminhavas.

Só presto eras no ofício fraudulento”.

“É certo; mas verdade não falavas”

O hidrópico diz — “quando exigiram

Em Tróia essa verdade, que ocultavas”.

“Se os lábios meus perjúrio proferiram,

Tu falsaste moeda: eu fiz um crime,

Aos teus nunca em demônio iguais se viram”.

“Do cavalo a façanha inda te oprime”

— Responde o que a barriga tinha inchada —

Sobre o teu nome infâmia o mundo imprime”.

“Arda em sede tua língua já gretada!”

Grita o Grego — “Hajas de água saniosa

O ventre impando, a vista embaraçada!”

“Escancaras a boca venenosa”

O moedeiro diz — “por mal somente;

Se sede eu tenho e a pança volumosa

“Ardes tu e a cabeça tens fervente.

Por lamberes o espelho de Narciso

A um aceno correras de repente”.

Atento estava aos dois mais do preciso,

Eis Virgílio me fala: — “Oh! toma tento!

Quase que eu contra ti me encolerizo!”

Iroso assim falar neste momento

O Mestre ouvindo, voltei-me corrido:

Ainda sinto rubor em pensamento.

Como quem sonha danos ter sofrido,

Que em sonho espera que sonhando esteja

E anela que o que é já não tenha sido,

A mente, sem dizer, falar deseja.

Desculpas aspirando à falta sua;

Stá desculpada e cuida que o não seja.

“Menos rubor lavara a culpa tua”

Disse o Mestre — “se houvera mor graveza:

Fique-te a mente da tristeza nua.

“E quando queira o acaso que à torpeza

De iguais debates se ofereça ensejo.

De que eu steja ao teu lado faz certeza,

Que é ter querendo ouvi-los, vil desejo”.