CANTO XXXI

By José Pedro Xavier Pinheiro

A língua, que me havia vulnerado

E a vergonha nas faces me acendera,

O bálsamo aplicava ao mal causado:

Assim de Aquiles e seu pai fizera,

Dizem, outrora a lança portentosa:

Sarava o corpo, que cruel rompera.

Damos costas à estância desditosa,

Sem proferir palavra atravessando

Sobre a borda, que em torno jaz fragosa.

Noite não sendo e dia não reinando,

Pouco distante eu divisar podia,

Eis som de trompa escuto, retumbando

Tão alto, que o trovão transcenderia,

Donde irrompera contra a parte andava

E sôfrego a um só ponto olhos prendia.

A de Orlando tão forte não soava

Na derrota fatal, que a santa empresa

De Carlos Magno o desbarato dava.

Já assim por diante: eis a grandeza

De muitas e altas torres me aparece.

“Qual é” — digo — “essa vasta fortaleza?”

“Pois de tão longe e em trevas te apetece

Julgar” — Virgílio diz — “um erro agora

Imaginando estejas acontece.

“Verás ali chegado, sem demora,

Quanto a distância a vista nos engana:

O passo acelerar convém por ora”.

Da mão travou-me e em voz suave e lhana

O Mestre prosseguiu: “Antes que avante

Passes, dessa ilusão te desengana.

“O que torre imaginas é gigante.

Da cinta aos pés imergem-se no poço,

E alçam bustos em torno ao espaço hiante”.

Quando o sol gasta o nevoeiro grosso,

Pouco a pouco se mostra e é discernido

Quanto oculta o vapor ao olhar nosso:

Vendo assim por esse ar escurecido,

Da borda mais e mais me apropinquando,

Fugia o erro, o horror tinha crescido.

Como torres em roda se elevando,

Montereggion guarnecem de coroa:

Assim do poço a margem circundando,

Torreiam com metade da pessoa

Os horríveis gigantes, que ameaça

Do céu ainda Jove, quando troa.

Distingo a cara de um (e me transpassa

O medo), logo os braços, peito e parte

Do ventre, que da borda a altura passa.

Bem fez a natureza, quando essa arte

De tais monstros criar há descurado,

De iguais agentes desarmando Marte.

Se ainda a selva e mar têm povoado

Do elefante e baleia, sutilmente

Quem pensa justa e sábia a tem julgado.

Mal seria aos humanos permanente,

Se perspicaz engenho encaminhasse

Maligno instinto em robustez ingente.

Larga e comprida, pareceu-me a face,

Qual de S. Pedro, em Roma, a brônzea pinha:

A proporção nas outras partes dá-se.

O corpo, que da borda acima vinha,

Tanto ao ar elevava a grã figura,

Que três Frisões, por lhe atingir a linha

Da cerviz, não fariam tanta altura,

Porquanto eu esmava em trinta grande palmos

Do colo ao poço a válida estatura.

Rafael mai amècch zabi almos

A pavorosa boca assim bradava;

Não podia entoar mais doces salmos.

Disse-lhe o Mestre: “Ó alma bruta e brava!

Tange a trompa, se queres lenitivo

À paixão, que te acende ardente lava.

“A roda busca do pescoço altivo

O loro, a que se prende alma confusa!

Vê que te cruza o vasto peito esquivo”.

Depois a mim: “De quanto fez se acusa,

É Nemrod; por tomar estulta empresa

O mundo uma linguagem só não usa.

“Deixêmo-lo: falar-lhe é vã despesa.

Como idioma de outros não compreende,

A quem o escuta o seu move estranheza”.

Vamos então caminho, que se estende

À sestra. Outro, de besta quase a tiro,

Está mais fero, o ar mais alto fende.

Que mão cativa o monstro, que admiro

Dizer não sei: o seu direito braço

Ao dorso preso vi, e ao peito diro

O outro, de grilhão no estreito laço,

Que com círculos cinco lhe cercava

Do enorme corpo o descoberto espaço.

“Esse réprobo” — diz Virgílio — “ousava

Medir forças com Jove soberano:

Eis o fruto do orgulho, que o danava!

“Era Efialto: executou seu plano,

Quando aos Deuses gigantes aterraram.

Jamais os braços mover pode o insano”.

“Os meus olhos, ó Mestre, assaz folgaram,

De Briaréu se vissem desmarcado

As formas” vozes minhas lhe tornaram.

“Anteu verás”, — me diz — muito afamado:

Stá solto, fala e nos demora perto,

Há de ao fundo levar-nos de bom grado.

“Remoto esse outro fica, e tem por certo

Que em grilhões e estatura àquele iguala:

Mais fero em vulto, em mal é mais esperto”.

Jamais um terremoto a torre abala

Em convulsões tão rápido, tão forte,

Como Efialto a mover-se. Eu já sem fala,

Assombrado, cuidei ter perto a morte;

E de pavor sem dúvida expirara,

Se ele preso não fosse, e de tal sorte.

Presto ao lugar seguimos, onde pára

Anteu: fora a cabeça, em cinco braças

À borda sobreleva, o que separa.

“Tu, que no val feliz, aonde as graças

E as palmas de Cipião colheu da glória,

Quando Aníbal vexavam só desgraças,

“Mil leões apresaste por memória;

Que, aos irmãos se ajudaras na alta guerra,

Se crê triunfo registrasse a história

“Dos fortes filhos da fecunda Terra!

Ao fundo transportar-nos sê servido,

Onde ao Cocito o frio as águas cerra:

“Te hemos a Tifo e a Tício preferido.

Dar pode este varão o que mais se ama:

Curvando-te compraz ao seu pedido.

“No mundo pode restaurar-te a fama,

Pois vive e ainda longa vida espera,

Salvo se a Graça antes do tempo o chama”.

Falara o Mestre. Anteu não considera:

Toma-o logo nas mãos, que lesto of’rece

E a que sentira Alcide a força fera.

Quando entre os dedos seus Virgílio vê-se,

Diz-me: “Faze-te prestes, que eu te abrace!”

Ao Mestre o meu querer pronto obedece.

Quem Carisenda, em seu pendor olhasse,

Cuidara, ao passar nuvem, que iminente

Ruína ao lado oposto ameaçasse:

Tal Anteu parecia de repente

Do corpo ao menear; quando o inclinava,

Estrada eu preferia diferente.

Mas de leve no fundo nos pousava,

De Judas e de Lúcifer assento.

A postura deixando, que o dobrava,

Qual mastro empertigou-se num momento.