CANTO XXXIII

By José Pedro Xavier Pinheiro

Do fero cevo os lábios desprendendo,

Na coma o pecador os enxugava

Desse crânio, a que estava atrás roendo.

“Queres de infanda mágoa” — começava —

Renove a dor, que, só pensando a mente,

Antes que falte, o coração me agrava.

“Mas se a voz minha deve ser semente,

Que ao traidor, que eu devoro a infâmia brote.

Falar, chorar, verás conjuntamente.

“Não sei quem sejas, não sei como note

Tua presença aqui, por Florentino

Te ouvindo a língua, é força que te adote.

“Saber deves que fui Conde Ugolino,

Que Arcebispo Rogério aquele há sido:

Direi qual nos juntou cruel destino.

“Contar não hei mister como iludido

Por minha confiança, em cárcer posto.

Fui morto por maldade deste infido.

“Não conheces, porém, que atroz desgosto

O meu fim precedera: atenção presta,

Quanto ofendido fui verás exposto.

“Por vezes da prisão por breve fresta,

— após o meu tormento,

Que há de a outros ainda ser funesta

“Brilhava a lua em pleno crescimento,

Quando o véu do futuro horrível sonho

Rasgou, do exício meu pressentimento.

“Este, como senhor, então suponho

Ao monte, que ver Lucca a Pisa obstava

Lobo e pequenos seus correr medonho.

“Magros cães, destros, feros açulava

Dos Galandis, Sismondis e Lanfrancos

A companha, que à frente cavalgava.

“Em breve o pai e os filhos, lassos, mancos,

Já dos famintos galgos mal feridos,

Dar pareciam últimos arrancos.

“Desperto ao primo alvor; dos meus queridos

Filhos que eram comigo, choro soa:

Pedem pão, stando ainda adormecidos.

“És cruel, se a tua alma não magoa

O prenúncio da dor, que me aguardava:

Se não choras, que pena há que te doa?

“Despertaram; e a hora já chegava

Em que alimento escasso nos traziam:

O sonho a cada qual nos aterrava.

“Da horrível torre à porta então se ouviam

Martelos cravejar: eu mudo e quedo

Nos filhos encarei, que esmoreciam.

“Não chorava; era o peito qual penedo.

Choravam eles, e Anselmuccio disse:

Assim nos olhas, pai? Do que hás tu medo?”

“Nem lágrimas, nem voz dei, que se ouvisse,

No dia e noite, que seguiu-se lenta,

Até que ao mundo novo sol surgisse.

“Quando a luz inda escassa se apresenta

No doloroso carcer, meu semblante

Nos quatro rostos seus se representa.

“Mordi-me as mãos de angústia delirante.

Eles, cuidando ser a fome o efeito,

De súbito e com gesto suplicante,

“Disseram: “Menos mal nos será feito

Nutrindo-te de nós, pai; nos vestiste

Desta carne: ora sirva em teu proveito”.

“Contendo-me, evitei lance mais triste.

Em silêncio dois dias se passaram...

Ah! por que, terra esquiva, não te abriste?

“Do quarto dia os lumes clarearam:

Gaddo caiu-me aos pés desfalecido:

“Pai me acode!” os seus lábios murmuraram.

“Morreu; e, qual me vês, eu vi, perdido

O sizo, os três, ao quinto e ao sexto dia,

Um por um se extinguir exinanido.

“Apalpando os busquei — cego os não via

Dois dias, os seus nomes repetindo:

Da fome mais que a dor, pôde a agonia”.

Calou-se e os torvos olhos retorquindo,

Como de antes cravou no crânio os dentes

E os ossos, qual mastim, foi destruindo.

Ah! Pisa, opróbrio aos povos residentes

Na bela terra, onde o si ressona!

Pois te não vêm punir vizinhas gentes.

Presto a Capraia mova-se e a Gorgona

Do Arno à foz, entupindo-lhe a saída

Teu povo assim pereça, que se entona.

E se foi a Ugolino atribuída

De entregar teus castelos à maldade,

Por que à prole em tal cruz tirar a vida?

Tebas moderna! Pela tenra idade

Ugoccione e Briga tá insontes eram

E os irmãos, em que usaste a feridade.

Seguindo além, os olhos se of’receram

Outros, que em gelo têm duro tormento:

Destes os rostos para trás penderam.

Lhes causa o pranto ao pranto impedimento;

E a dor, que desafogo em vão procura,

Lhes cresce, recalcada, o sofrimento.

As lágrimas coalhando em neve dura

Formam nos olhos seus vítrea viseira,

E todo o espaço interior se obtura.

Conquanto quase a faculdade inteira

De sentir no meu rosto se embotasse

Dês que era nessa perenal geleira,

Cuidei que um sopro me tocara a face.

“Do que este sopro” — inquiro — “se origina?

Se aqui não há vapor, donde ele nasce?”

E o Mestre: “Irás onde a resposta di’na

Os teus olhos darão; e ali chegando

O que virem do sopro a causa ensina”.

Dos tristes padecentes um gritando,

Nos disse: “Almas cruéis, almas danadas

(Pois que no extremo abismo estais penando)

“Tirai-me aos olhos gélidas camadas,

Por desafogo dar-me ao peito aflito,

Antes de eu ter as lágrimas coalhadas”.

“Se o lenitivo queres, que tens dito,

Teu nome diz: se não me desobrigo,

Desça eu do gelo ao pelágio maldito”.

Respondeu logo: “Eu sou frei Alberigo,

Pelos pomos famoso do mau horto:

Aqui recebo tâmara por figo”.

“Oh!” — disse — “porventura tu stás morto?”

“Não sei como é meu corpo lá no mundo”,

Tornou “e se vivendo tem conforto.

“Este condão possui sem ter segundo

Ptoloméia: aqui star alma é frequente

Antes que a mande Atropos ao profundo.

“E por que mais de grado e prontamente

Estas vidradas lágrimas romovas,

Sabe que apenas de traição a mente

“Inquina-se, como eu, por funções novas

Passa o corpo a demônio, que o governa

Té completar da vida últimas provas:

“Rui a alma, entanto, à lôbrega cisterna,

Talvez na terra folgue o corpo ledo,

Cuja sombra após mim trêmula inverna.

“Se és recém-vindo, sabe que esse tredo

É Branca d’Ória: há prolongados anos

Jaz enleado no infernal enredo”.

“Este é” tornei “mais um dos teus enganos:

Desfruta alegre Branca d’Ória a vida

E come e bebe e dorme e veste panos”.

“Dos Malebranche em cava denegrida,

Não era” disse ainda “em pez viscoso

Alma de Miguel Zanche submergida,

“E um demônio esse infame criminoso

Deixou no corpo; o mesmo um seu parente,

Que de traição foi sócio proveitoso.

“Das mãos auxílio presta ora clemente,

Me abrindo os olhos!” Tal não fiz; que errara

Com tal vilão me havendo cortesmente.

Ah! Genoveses! raça impura e avara,

Que nos costumes tem mancha tamanha!

Quem da face da terra vos lançara!

Junto ao pior esp’rito da Romanha

De entre vós um traidor vi tanto imundo,

Que a alma sua em Cocito já se banha,

Enquanto o corpo vida finge ao mundo.