CANTO XXXIV

By José Pedro Xavier Pinheiro

Vexilla regis prodeunt inferni

Contra nós; pra diante os olhos tende

Disse o Mestre, se a vista já discerne”.

Como quando no ar névoa se estende,

Ou ao nosso hemisfério a noite desce,

Um moinho distante a atenção prende.

Um edifício igual verme parece.

Tanto era o vento, que eu busquei guarida

Atrás do Mestre, que outra não se of’rece.

À parte era chegado, onde imergida

Cada alma em gelo está (tremo escrevendo),

Bem como aresta no cristal contida.

Erguidas umas stão, outras jazendo

Qual sobre a fronte ou sobre os pés firmada

Qual com seus pés o rosto arco fazendo.

Quando distância tal foi superada,

Que aprouve ao Mestre me tornar patente

A criatura bela ao ser formada,

Se afastando de mim, disse: “Detém-te!

Eis Satanás! Eis o lugar horrendo

Em que deves te armar de esforço ingente!

Quanto assombrei-me aquele aspecto vendo

Não inquiras leitor: não te expressara

Com verbo humano o que encarei tremendo.

Não morto, porém vivo não ficara.

Qual me achava te pinte a fantasia,

Se morte ou vida em mim se não depara!

Do aflito reino o imperador eu via:

Do gelo acima o seio levantava.

A um gigante igualar eu poderia,

Se um gigante a um seu braço eu comparava!

Do todo vede a proporção qual fora,

Quando tão vasta a parte se ostentava!

Quem foi tão belo, quanto é feio agora,

Contra o seu criador a fronte alçando

Vera causa é do mal, que o mundo chora.

Qual meu espanto há sido em contemplando

Três faces na estranhíssima figura!

Rubra cor na da frente está mostrando;

Das outras cada qual, da pádua escura

Surdindo, às mais ajunta-se e se ajeita

Sobre o crânio da infanda criatura.

Entre amarela e branca era a direita;

A cor a esquerda tem que enluta a gente

Do Nilo às margens a viver afeita.

Via asas duas sob cada frente,

Tão vastas, quanto em ave tal convinham:

Velas iguais não abre nau potente.

Plumas, como em morcego, elas não tinham;

De contínuo agitadas produziam

Os três gélidos ventos, que mantinham

Os frios, que o Cocito enrijeciam.

Chorava por seis olhos, por três mentos

Pranto e sanguínea espuma se espargiam.

Qual moinho, com dentes truculentos

Cada boca um prexito lacerava:

Padecem três a um tempo assim tormentos.

Mas ao da frente a pena se agravava,

Porque das garras o furor constante

Do dorso a pele ao pecador rasgava.

“O que esperneia em dor mais cruciante”

O Mestre disse: “É Juda Iscariote:

Prende a cabeça a boca devorante.

“Dos dois, que estão pendendo, coube em dote

A negra face Bruto: sem gemido

Se estorce da dentuça a cada bote.

“O outro é Cássio, de membros bem fornido.

Mas a partir a noite insta, assomando:

Aqui já tudo havemos conhecido”.

Do Mestre o colo enlaço por seu mando.

Ele em lugar e tempo apropriado,

De Lúcifer as asas se alargando,

Ao peito hirsuto havia-se agarrado;

Depois de velo em velo descendia

Entre os ilhais e o lago congelado.

Chegado àquela parte, em que se unia

Da coxa o extremo dos quadris à altura,

Com grande ofego e mor abalo o Guia

Pôr a fronte onde os pés firmou procura,

Como quem sobe às crinas agarrado:

Assim tornar cuidei do inferno à agrura.

“Segura-te! Por tais degraus alado”

Lasso Virgílio já disse anelante,

“Deste império do mal serás tirado”.

De uma rocha então sai por fresta hiante;

Sobre a borda me assenta cauteloso;

Depois a mim se acerca vigilante.

Olhos alcei julgando curioso

Ver Lúcifer, qual de antes o deixara;

De pernas para o ar vi-o em seu pouso!

De que enleio a minha alma se tomara,

Deixo ao vulgo pensar pouco instruído,

Que o ponto não compreende, em que eu passara.

“Eia! Vamos!” o Mestre diz querido,

“Longa jornada e mau caminho temos;

E a meia terça o sol já tem corrido”.

De paço em salas nós de andar não temos;

Mas de antro natural em solo duro

Os passos nossos dirigir devemos.

“Antes que eu deixe em todo o abismo escuro

Erro, em que estou, meu Mestre, desvanece”

Disse erguendo-me um pouco mais seguro.

“Onde o gelo? Por que nos aparece

Assim Lúcifer posto? E já tão presto,

Cessando a noite, o sol nos esclarece?”

“Tu cuidas ser, do que ouço é manifesto

Lá no centro, onde ao pêlo me prendera

Do que atravessa o mundo, verme infesto.

“Ali stiveste, enquanto descendera

Ao voltar-me do ponto além tens sido,

Que o peso atrai na terreal esfera.

“Foste àquele hemisfério transferido,

Que se opõe ao que a terra está lançado,

Em cujo excelso cume há padecido;

“Quem nasceu, quem viveu sem ter pecado

Sobre uma esfera estreita os pés agora,

Da Judeca ao reverso, tens firmado.

“É noite lá; nós temos luz nesta hora;

E o que nos velos seus nos deu a escada

Na postura se firma, em que antes fora.

“Caiu aqui da altura sublimada,

E a terra, que se alçava entumescente,

Do mar fez véu e veio de enfiada

“Para o nosso hemisfério de repente.

Também fugiu de medo, a que se avista;

Vácuo deixando aqui, fez monte ingente”.

Lá no profundo há um lugar, que dista

Tanto de Belzebú, quanto se estende

Seu sepulcro: ali não penetra a vista.

Revela-o som de arroio, que descende

Por brecha do rochedo, que escavara,

Em torno serpeando, e pouco pende.

Para voltar do mundo à face clara

Nessa vereda escusa penetramos:

De nós nenhum de repousar cuidara.

Virgílio e eu, logo após, nos elevamos,

Té que do ledo céu as cousas belas

Por circular aberta divisamos:

Saindo a ver tornamos as estrelas.