CARIDADE INFANTIL

By Delminda Silveira de Sousa

Pela estrada caminhava

Um pobre velho mendigo

Triste, sem pão, sem abrigo,

Oh! que amarguras provava!

Como a lã da branca ovelha

Eram brancos seus cabelos,

Seus olhos, outrora belos,

Da luz já perdem a centelha.

Quase cego, dos caminhos

Mal vê abrolhos no chão;

Mas dentro do coração

Bem sente agudos espinhos!

E lentamente seguia

Ao seu bordão arrimado,

Quando bem perto, espantado,

Vozes ouviu de alegria.

Era um bando de crianças

Que da escola já voltavam,

E à frente dele cantavam,

Com ginásticas e danças.

Quis afastar-se o velhinho

Tateando com o bordão;

Porém, tropeça, e no chão

Cai de bruços, pobrezinho.

Mil gargalhadas formando

Uma infernal gargalhada.

Da turba desapiedada,

Vai nos ares reboando!

Eis que do grupo impiedoso

Um menino, — alma sublime,

Ao triste que a dor oprime

Estende a mão caridosa:

“Levantai-vos, pobre amigo!

Disse, e a meu braço encostado,

Levar-vos-ei, amparado,

De caridade a um abrigo.”

Os companheiros que viam

Tão bela ação, comovidos,

Vêm, um a um, recolhidos,

E ao bom colega auxiliam.

Chorando, ergueu-se o mendigo,

Chorando de gratidão,

Que achou no mundo um irmão

E amigos mil, num amigo.

No meio da criançada,

A destra o velho estendendo,

E os olhos sem luz erguendo

Do céu à cúpula anilada,

Assim fala: “Oh, filhos meus!

Como uma graça infinita

Sobre vós desça, bendita,

Do céu a bênção de Deus!”

“Eu me vou ao meu destino

Bem consolado, é verdade,

Pois achei a caridade,

No coração dum menino!”