CARNAVAL
Em tudo este mundo finge
e ri da credulidade!
Arquemos hoje coa esfinge,
extorquamos-lhe a verdade.
Deixemos, leitor, os ramos,
os cartões e o bom confeito;
em boa paz discorramos
em coisas de mais efeito.
Tolentino zombeteiro,
autor de frases amenas,
teve papel e tinteiro
das benévolas camenas.
Se com tal favor não conto
por me ser Apolo adverso,
darás benigno desconto
às pobrezas do meu verso.
Acho bom que nos postemos
nesta esquina, a ver quem passa.
Ocasião hoje temos
de rir de tanta trapaça.
Que figuras esquisitas,
qual a qual com mais asseio!
Se temes, leitor, e hesitas,
é sem causa o teu receio.
Inofensivo cortejo
ao folguedo se encaminha;
não temas, eu te protejo;
vem! dá-me o braço e caminha!
— Eia! o ânimo recobra!
De riso quase arrebento!
Se é homem aquela cobra,
por que gritas por São Bento?
— Cuidas que a frágil bengala
te queiram fazer em cacos,
se conseguem empolgá-la
esses trêfegos macacos?
Isto é pantomima ou farsa.
— E se este, de verde-gaio,
se reveste e se disfarça,
nem por isso é papagaio.
Mas coa falsa bicharia
nossa atenção não gastemos:
mais saborosa ucharia
para a crítica hoje temos.
Essa corja se afugente
e fora daqui se lance;
só a beliscar em gente
nossa audácia se abalance.
Aquele que os outros guia,
e é figura que se nota,
com ares de fidalguia
faz o papel de janota.
Se hoje tem fina casaca,
e chapéu que as nuvens roça,
já transportou muita saca,
por ser homem de carroça.
— Repara no magistrado,
paramentado de beca.
Músico em vez de letrado,
vive do arco e da rabeca.
— Vês o ancho brigadeiro,
com bordadura na gola?
Infame estalajadeiro,
gato por lebre degola.
Hoje garboso se ostenta,
brandindo luzente espada;
amanhã terá oitenta
ou mais fregueses da empada.
— Vês o nobre cavaleiro,
com seu hábito da Rosa?
Vende lama de atoleiro,
por tinta de caparrosa.
— Vês ali o sacerdote
de negras roupas talares?
O bom disfarce é grão dote,
mas longe de nossos lares.
O devasso libertino
sob a máscara se oculta;
na crápula e desatino
é o horror da genta culta.
— Vês ali apavonada
a figura de um Visconde?
Estupidez e mais nada
sob a máscara se esconde.
— Vês aquele missionário
que descobre a fronte lisa,
e qual mestre em seminário
nossas ações moraliza?
Denunciá-lo à justiça
fora bom, mas não assino;
senão, contra mim se atiça
o furor desse assassino.
— Repara nessas maneiras
do mercador de alta escala,
que, por não dizer asneiras,
impassível ouve e cala.
É taverneiro distinto,
e a profissão feliz, boa;
faz vinho que se diz tinto,
põe-lhe o letreiro — Lisboa —.
— Não ouves como conversa
gente de voz tão macia,
e a discussão toda versa
em reis e diplomacia?
Uns falam pró, outros contra;
mas sezões me chova a lua,
se na súcia não se encontra
mais de um arrais de falua.
— Não vês o aspecto sombrio
daquele capitalista
que dos homens de mais brio
é o primeiro na lista?
Desmazelado caixeiro
é o tal senhor Francisco,
pois o balcão de mau cheiro
deixa coberto de cisco.
— Não vês aquele adotivo
professor de medicina,
que no olhar meditativo
mostra saber o que ensina?
Se te descubro o sujeito,
juro que a rir te escangalhas.
Não reconheces o jeito
do atalhador de cangalhas?
— Não vês aquele monarca,
de manto, cetro e coroa?
O pobretão não tem na arca
um vintém para boroa.
— Não vês o ancião que alveja,
encolhido e desdentado?
Nele cumpre que se veja
um Conselheiro d’Estado!
A antítese certamente
não pode ser mais exata:
é fresco, é jovem, e ou mente
ou não ata, nem desata.
— Não vês lá o candidato
repartindo circulares?
Quanto ele seja cordato
é fácil de calculares.
Criado de galão branco,
ou servente de ucharia,
se o carnaval achou franco,
a senatória acharia.
— Que de heróis do tempo antigo
aquele grupo arremeda!
Aí tens, leitor, contigo
povo Assírio, gente Meda.
— Caminha ao lado d’Isócrates
o longímano Artaxerxes.
— Aspásia, mestra de Sócrates,
caminha ao lado de Xerxes.
— Como acolá se mistura,
como se tem confundido
na viva caricatura
a triste, mesquinha Dido!
Trai o amoroso contrato
e, conforme se crê, usa
do proceder mais ingrato
o viúvo de Creúsa.
Não repilas, não enxotes,
meu leitor, o pio Eneias!
Repugna louvar Quixotes
rendidos a Dulcineias!
— Horácio empina um almude,
para animar estas cenas;
pede aos deuses não se mude
de entre os viventes Mecenas.
É filósofo o brejeiro,
e não há quem o apoquente;
acha tudo lisonjeiro,
contanto que ele ande quente.
— Virgílio ali se complica
no reboliço da rua;
a surdos e ao vento explica
o préstimo da charrua.
— Ovídio suave e belo,
carpindo suas desgraças,
recomenda ao seu libelo
que evite o palácio e as praças.
Do Capitólio descera,
todo assombrado de um raio;
porém o Nasão de cera
ainda nos brada: Honrai-o!
Minha razão é tão romba,
que, a despeito dos mentores,
nisto acho exemplo de arromba
a futuros escritores.
— Cícero acolá por gesto
se explica, e o sobrolho enruga;
ora folheia o Digesto,
ora coça na verruga.
Foi bem apanhado o absurdo
(perdoem-me os palradores):
representa um mudo-surdo
o maior dos oradores!
— Mostra o copo como emblema
do alto oficio Ganimedes.
— Risca e resolve um problema
coo pau no chão Arquimedes.
— Aquela figura austera
grave balança equilibra,
cujo fiel não se altera
por mais libra, menos libra.
Parodia o justiceiro
sábio Minos, rei de Creta;
instinto de carniceiro
só leis de sangue decreta.
— Caro leitor complacente!
Nas noções que passo a dar-te
o meu estro se ressente
da falta de engenho e d’arte.
Se acaso não tens notícia
dos habitantes do Olimpo,
esta canalha fictícia
eu te vou tirar a limpo.
— Ali o velho Saturno
que devora e não mastiga,
nos recorda taciturno
a régia ambição antiga.
— Este é Júpiter potente,
sem corretivo, absoluto;
ninguém o ódio lhe tente,
se não quer em casa luto.
Bem o conheço, e se o digo
não é para seu desdoiro;
como pode este mendigo
transformar-se em chuva d’oiro?!
— Aquele, de arnês provido,
se bem não posso afirmar-te,
pelo menos tenho ouvido
ser o bélico deus Marte.
Porém desde que ele há sido
lembrado para recruta,
não tem amadurecido
no meu quintal uma fruta.
Quando a guerra nos assola,
dou-te um bolo se o apanhares;
aproveita-se da sola,
e dá giz nos calcanhares.
— O que traz bigorna e tomo,
e martela férreo cano,
da gâmbia pelo transtorno
mostra ser o deus Vulcano.
— Este que empunha o tridente
com movimento importuno,
que me caia mais um dente
se não é o deus Netuno.
— Esta cara luzidia
menos mal finge a de Apolo,
que ministra luz e dia
à esfera de polo a polo.
— Aquele que ri à toa
oferecendo tabaco,
e canta, mas não entoa,
bem mostra ser o deus Baco.
— Prosérpina, Juno e Astreia,
da maneira mais burlesca,
também fazem sua estreia
na cena carnavalesca.
Armado de arco e de frechas
aquele rapaz despido,
que em tantos peitos faz brechas,
é o magano do Cupido.
— Trazem naquela berlinda
fogosíssimos cavalos
a personagem mais linda,
e ninguém ousa estorvá-los.
A deidade se mascara
e grande ilusão me gera;
mas se lhe descubro a cara,
Vênus torna-se Megera.
— Ali vem uma donzela,
de Vesta sagrada ao culto;
a sacra pira que zela
não lhe iguala ao fogo oculto.
É outra a realidade,
que não digo por decência;
conhece-a meia cidade;
tem por alcunha: Inocência.
— Entre sedas e veludo,
sobre macia almofada,
olha, leitor, não te iludo,
lá se recosta uma fada.
Mas não acredites nela;
é nossa vizinha Olaia.
Ou à porta ou na janela
há muitas da mesma laia.
— Formando-se justa ideia,
que ilação daqui se tira?
Tanto deus e tanta deia,
tanto herói tudo mentira!
O carnaval nos retrata
o mundo em miniatura;
a verdade é coisa ingrata,
por isso reina a impostura.
Perdão, gente galhofeira!
Melhor que estes meus resumos,
a próxima quarta-feira
diz: Pulvis et umbra sumus.