Carregando uma cruz

By Juvêncio de Araújo Figueredo

Quando eu era rapaz,

Alma alegre e fremente, e coração audaz,

Amava loucamente os pássaros e as flores

Dos matagais.

Pelas lindas manhãs

Coroadas de fulgores,

Eu e as minhas irmãs

Corríamos ao campo, e o campo nos enchia

De diamantes de orvalho...

Galgávamos a encosta, e, lá em cima, nos morros,

Gozávamos os jorros

Da luz que, para nós, era a unção do trabalho.

O que, pelas manhãs, os nossos olhos viam

Nas searas em flor, nas árvores, nos rios,

Em tudo, enfim, só recordando

Um ano inteiro.

E o que ouvíamos cantar!

Cantava a luz do sol, na alma ideal das aves,

Umas canções suaves;

Cantava a luz do sol, nas rútilas cigarras,

Umas canções bizarras;

Cantava a luz do sol, no áureo pólen das rosas,

Umas canções cheirosas;

Cantava a luz do sol, nos verdes laranjais,

Canções cheias de amor, outras só cheias de ais!

Cantava a luz do sol, nas carícias do mar,

E nas velas que o vento enchia de esperanças.

Nos simples corações das meigas pombas mansas

Cantava a luz do sol! Só mesmo recordando

Um ano inteiro.

E é o que ontem recordei, à sombra de um pinheiro.

Vi passar por ali, de quando em quando,

As mesmas aves, com seus cantos suaves;

E as searas em flor, essas mesmas searas,

Pelas róseas manhãs, dulcíssimas e claras;

E aqueles rios com os mesmos amavios...

E, desse mar azul, as marulhosas ondas,

Eram, na mesma praia, as vedetas, as rondas...

E ainda recordei as rumorosas mondas,

E a fartura nas granjas,

Sentindo em derredor o aroma das laranjas,

E o da polpa febril dos ananases,

Que eu trincava, sedento, e mais outros rapazes.

E recordei também as roças trabalhadas

Nas várzeas do sertão; e essas longas jornadas

A frente dos meus bois, de dia, ou à luz do luar,

Pelas brancas estradas,

E, às vezes, junto do mar, onde, já homem feito,

Comecei a sentir, nas entranhas do peito,

Uma louca paixão pela minha

Vizinha, uma rapariguinha

Que era a mais bela rosa do lugar!

Recordei os engenhos,

Nas farinhadas alvoroçadas,

Nas quais havia empenhos

Para eu com essa rosa me casar.

E eu tinha um coração para adorá-la!

A sua casa branca era a melhor das granjas,

Onde eu, muito feliz, nos carinhos da sala,

Ou nos terraços,

Unido à rósea cruz dos seus formosos braços,

Chupava, em gomos d’ouro, o suco das laranjas.

Mas tudo se acabou por que, na flor dos anos.

Tive de ir para a guerra

Dos desenganos, longe da minha terra...

E que saudades havia a toda hora do dia!

Que saudade das árvores, dos rios,

E dos seus murmúrios!

Que saudade das aves,

E dos seus cantos suaves!

Que saudade dos morros e das searas,

Pelas manhãs claras!

E dos meus bois, de tão humilde olhar!...

Que saudade das praias e do mar!

E, das minhas irmãs,

Que, comigo, ao clarão dessas manhãs,

Aos altos morros íngremes subiam,

Que saudade!

E que saudade da velhinha triste

Que eu deixara a chorar, e que hoje não existe!

Mas a minha maior saudade, nessa guerra

De tantos desenganos,

Na virgem flor dos anos,

Era por ela, a mais faceira rosa

Do lugar!...

Seus lindos olhos me seguiam

Como dois passarinhos, pelo ar...

Dois passarinhos que os meus olhos viam

Como se os vissem neste almo lugar,

Onde eles, coitadinhos! se molharam

De um pranto amargo e atroz, quando eu parti.

E quantas vezes, quantas, lá os vi,

Nos desertos campos profanos

Dos desenganos, na guerra atroz.

Nessa luta titânica, feroz!

À noite, eram dois lindos pirilampos;

De dia, dois misteriosos sóis!

As suas mãos formosas me acenavam

Como se fossem flâmulas de linho...

Eu via, então, o branco do caminho;

E os meus braços na luta descansavam.

Sua boca cantava umas canções

De tal maneira meigas, e suaves,

Que eu nelas via um livro de orações,

Ou quem sabe? se o cântico das aves.

Suas tranças viviam a prender

Os flagelos que me atormentavam.

E muitos, muitos deles vi morrer

Quando essas tranças sobre mim voavam...

Seu peito era, na guerra, onde eu me via,

Uma couraça que jamais quebrou-se

Por isso, uma esperança sempre havia

P’ra consolar-me, fosse como fosse.

Pensando nela, assim, é que eu vivia.

Horas inteiras, dias e semanas,

Não me faltando n’alma uma alegria,

Mesmo junto das lutas mais tiranas.

Anos depois voltei,

E vi tudo mudado, que nem sei!

Desceu-me, então, ao coração

Uma amargura que me compungia,

Pois em todas as coisas só eu via

Desolação...

E já não existia

A mais faceira moça do lugar!

Morrera, a pobrezinha, em plena mocidade,

Sem se casar!...

Ao recordar-me dela, dessa flor

Que fora neste mundo o meu primeiro amor,

É que me vês, Senhora, de mãos postas,

Carregando uma cruz por sobre as costas,

De minuto a minuto, hora a hora,

Porque fui eu, Senhora,

Quem, ingrato, a matou de profunda saudade...