CASADO, E RICO SE EMBARCOU PARA PORTUGAL A COMPRAR NOBREZA; E O POETA LHE FAZ AS...

By Gregório de Matos Guerra

Adeus, Amigo Pedralves,

que vos partistes daqui

para geral desconsolo

deste Estado do Brasil.

Partistes-vos, e oxalá,

que então vos vira partir,

que sempre um quarto tomara

a libra por dous ceitis,

Pusera o quarto em salmoura,

e no fumeiro o pernil,

o pé não: porque me dizem,

que vos fede o escarpim.

Guardara o quarto de sorte,

que se vos pudera unir

na surreição dos ausentes,

quando tornásseis aqui.

Mas vós não fostes partido,

mente, quem tal cousa diz,

antes fostes muito inteiro,

e sem se vos dar de mim!

Saüdades não levastes,

deixaste-las isso sim,

porque de todo este povo

éreis o folgar, e o rir.

Desenfado dos rapazes

das Moças o perrexil,

o burro da vossa casa,

e da cidade o rocim.

Lá ides por esses mares,

que são vidraças de anil,

semeando de asnidades

toda a margem de Zafir.

O Piloto, e à companha,

apostarei, que já diz,

que vai muito arrependido

de irdes no seu camarim.

O homem se vê, e deseja,

e desesperado enfim,

aceita, que a Nau se perca

por vos ver fora de si.

Deseja ver-vos lutando

sobre o elemento sutil,

onde um tubarão vos parta,

vos morda um Darimdarim.

Deseja, que os peixes todos

tomem acordo entre si

de vos fazer nos seus buchos

sepultura portatil.

Sente, que em amanhecendo

a fina força há de ouvir

os bons dias de uma boca,

cujo bafo é tão ruim.

Sente, que não empregando

nem um só maravedi

em queijos frescos, e a eles

vos tresanda o chambaril.

Mas vos heis de ir a Lisboa

apesar do vilão ruim.

El-Rei vos há de fazer

com mil mercês honras mil.

Os cavalheiros da Corte

trazendo-vos junto a si,

vos hão de dar como uns doudos

piparotes no nariz.

E como vós sois doente

de fidalgos frenesis,

por ficar enfidalgado

toda a mofa heis de rustir.

O que trareis de vestidos!

uns assim, outros assim:

sereis o molde das modas,

e o modelo dos Turins.

À conta disto me lembra,

quando em Marapé vos vi

vestido de pimentão

com fundos de flor de Lis.

Em verdade vos afirmo,

que então vos supus, e cri

surrada tapeçaria,

tisnado guadamecim.

O que direis de mentiras,

quando tornares aqui!

amizades de um Visconde,

favores de um Conde vis,

Valido de um tal Ministro,

Cabido de um tal Juiz,

e até do mesmo Cabido

leiguíssimo Mandarim.

El-Rei me fez mil favores:

mil favores? mais de mil;

bem fez, com que lá ficasse,

mas não o pude servir.

Quem casou, como eu casei

com Mulher tão senhoril,

é cativo de um Terreiro,

não me posso dividir.

D’El-Rei é minha cabeça,

porém o corpo gentil

todo é de minha Mulher,

não tem remédio, hei de me ir.

Achou-me razão El-Rei

e na hora de partir,

pondo-me a mão na cabeça

me disse, Perico, há de ir.

Ide-vos, Perico, embora,

ide-vos para o Brasil,

que, quem vos tirou da Corte,

não vos tirará daqui.

E pondo em seu peito a mão,

eu, que a firmeza entendi,

chorei por agradecê-la

lágrimas de mil em mil.

Botei pelo Paço fora

meti-me no bergantim,

cheguei a bordo, embarquei-me,

levamos ferro, e parti.

Os cavalheiros da Corte

choraram tanto por mim,

como por uma comenda

Santiago ou de Avis.

Ontem avistamos terra,

e quando na barra vi

coqueiros, e bananeiras,

disse comigo: Brasil.