Castelã

By João da Cruz e Sousa

Bela e mais encantadora

Do que todas as belezas...

Graça leve de pastora

Que canta pelas devesas.

Enleios de passarinhos

E brilhos de primaveras,

Com magnetismos de vinho

No olhar azul de quimeras.

Feita de um jorro sadio

De auroras purpureadas...

Carne mais fresca que um rio

De frescas águas prateadas.

Tudo é frio e tudo é raso

Para dizer-te, a capricho,

Que és magnólia para um vaso,

Que és arcanjo para um nicho.

Entre cheirosas espumas

Das tuas sedas e rendas

Esvoaçam, como entre brumas,

Baladas, canções e lendas.

És um mito da Alemanha

Vivendo em montanha alpestre,

No castelo da montanha,

Como ardente flor silvestre.

E tens as pomas à farta;

Polpudas, cheias de aromas...

És assim a loura Marta

Com abundância de pomas.

Esse príncipe que te ama,

Cismando, trágico e grave,

Quando o luar se derrama

Cuida ouvir-te os voos de ave.

Ele vive, airoso e belo,

Como se vive num sonho,

No seu nevoento castelo

Junto de um lago tristonho.

E através do pó flutuante

Do luar saudoso e vago

Julga que és a garça errante

Das águas verdes do lago.