CASUAL ENCONTRO QUE TEVE O POETA COM BRITES NO SEU RETIRO DE HUA ROÇA.
Fui ver a fonte da roça,
e quando a mais gente vai
a refrescar-se na fonte,
eu me fui nela abrasar.
Dentro na fonte achei Brites,
que ali se foi a banhar,
por dar que entender aos olhos
um cristal noutro cristal.
Noutras horas corre a fonte:
com Brites corrida vai,
vendo que a sua brancura
a excede nos cabedais.
Sentiu-me Brites ao longe,
e o fraldelim posto já
era narciso no campo,
quem foi incêndio do mar.
Cheguei, e vendo tão claro
da fonte o rico raudal,
estive um pouco perplexo
entre o crer, e o duvidar.
Enfim vim a persuadir-me
que Brites em caso tal
não foi lavar-se na fonte,
mas foi à fonte lavar.
Tão líquida, e transparente
corria, que por sinal
de Brites lhe pôr as mãos
desatada em prata vai.
Por entre pedras a fonte
percipita o seu cristal,
que lhas tira como louco,
quem o vê precipitar.
Convidou-me, a que bebesse
a neve do manancial,
e se a neve assim me abrasa,
o incêndio que fará.
Bebi, e não matei sede,
porque no inferno de amar
fui Tântalo, cuja pena
o beber acende mais.
Queira Amor, Brites ingrata,
que essa fonte, esse cristal
não seja o vosso perigo,
em que Narciso morrais.
Que, quem me matou na fonte
por seu gosto a meu pesar,
será despique de um cego,
e vingança de um rapaz.