CASUAL ENCONTRO QUE TEVE O POETA COM BRITES NO SEU RETIRO DE HUA ROÇA.

By Gregório de Matos Guerra

Fui ver a fonte da roça,

e quando a mais gente vai

a refrescar-se na fonte,

eu me fui nela abrasar.

Dentro na fonte achei Brites,

que ali se foi a banhar,

por dar que entender aos olhos

um cristal noutro cristal.

Noutras horas corre a fonte:

com Brites corrida vai,

vendo que a sua brancura

a excede nos cabedais.

Sentiu-me Brites ao longe,

e o fraldelim posto já

era narciso no campo,

quem foi incêndio do mar.

Cheguei, e vendo tão claro

da fonte o rico raudal,

estive um pouco perplexo

entre o crer, e o duvidar.

Enfim vim a persuadir-me

que Brites em caso tal

não foi lavar-se na fonte,

mas foi à fonte lavar.

Tão líquida, e transparente

corria, que por sinal

de Brites lhe pôr as mãos

desatada em prata vai.

Por entre pedras a fonte

percipita o seu cristal,

que lhas tira como louco,

quem o vê precipitar.

Convidou-me, a que bebesse

a neve do manancial,

e se a neve assim me abrasa,

o incêndio que fará.

Bebi, e não matei sede,

porque no inferno de amar

fui Tântalo, cuja pena

o beber acende mais.

Queira Amor, Brites ingrata,

que essa fonte, esse cristal

não seja o vosso perigo,

em que Narciso morrais.

Que, quem me matou na fonte

por seu gosto a meu pesar,

será despique de um cego,

e vingança de um rapaz.