Cega

By João da Cruz e Sousa

Parece-me que a luz imaculada

Que vem do teu olhar, todo doçuras,

Não verte no meu ser aquelas puras

Delícias de outra era já passada.

Eu creio que essa pálpebra adorada

Não mais um flóreo empíreo de venturas

Descobre-me — na noite de amarguras,

De dúvidas intérminas cortada.

Não olhas como olhavas, rindo, outrora,

Não abres a pupila, como a aurora

Nascendo, abre, feliz, radiosa e calma.

A sombra, nos teus olhos, funda, existe!...

Tu’alma deve ser bem negra e triste

Se os olhos são, decerto, o espelho d’alma.