CELEBRA A CARREYRA QUE DEO HUM CABOCLO A HUM SUGEYTO, QUE ACHOU COM HUMA NEGRINH...

By Gregório de Matos Guerra

Arre lá co Aricobé,

como ele é corredor,

porque fiz co pecador,

o que já com São Tomé:

o pobre teve bom pé,

e esta parte não é má,

pois se ao chinelo não dá,

e no fugir não insiste,

creio, que diria o triste,

se isto assim é, arre lá.

O pobrete inadvertido

de avançada tão medonha,

diz, que não tendo vergonha,

só então se viu corrido:

e sendo a pulso seguido

do cioso Paiaiá,

sem dizer cobé, nem pá,

gritava por toda a rua,

se te deixo a fêmea tua,

que me queres? arre lá.

Não deu por isto o Tapuia

cortesão do Santo Sé,

que apertava mais o pé,

só para lhe dar na cuia:

vendo o pobre esta aleluia,

que tanto susto lhe dá,

ajuntava a perna à pá

para mais veloz correr,

que quanto isto de morrer

faz mui mal cabelo cá.

Nada disto lhe valeu,

nem o dar tanta passada,

porque quando nada nada

alguma cousa lhe deu:

na fugida não perdeu,

mais que o que se falará:

se bem, que mais sentirá

que se diga em todo o ano,

que o Tapuia desumano

sabe mais do que cará.

O Frecheiro a pouco custo

dizia, porque é magano,

o cão livrou-se do dano,

mas não se livrou do susto:

irracionalmente injusto

o vulgo me chamará,

mas eu pouco se me dá,

porque no caso presente

quis, que conhecesse a gente,

se é gente o Barabauá.

Não é de beiço furado

o cabocolo maligno,

que me pareceu menino

só em ser demasiado:

se bem, que por ter gostado

do que qualquer gostará,

quem o desculpe, haverá,

no cometer este excesso,

que eu também morro (confesso)

por este có mangará.

Com que afagos a negrinha

ao pobrete trataria,

uma onde se lhe ia,

e outra onda se lhe vinha,

medrosa estava a pretinha,

que nunca a cor mudará,

e como não era má,

que a qualquer outra acontece,

não quis o pobre morresse

entre mil soluços cá.

Este gostinho roubou

o Tatu do Carapai,

pois sem dançar o chegai,

no pobrezinho chegou:

porque logo que os achou

um de lá, outro de cá,

disse a ambos arre lá,

na minha casa, velhaca,

vos tira cá o meu faca,

minha comer catucá.

A negra, que nisto estava,

já que fazer não sabia,

porque se de um gosto ria,

também de um susto chorava:

desta maneira gritava

“Paí na matá, a lá lá,

aqui sá tu mangalá,

saiba Deus e todo o mundo,

que me inguizolo mavundo

mazanha, mavunga, e má”

O Tapuia é mui valente,

pouco digo, valentão,

pois no centro do sertão

fez já fugir muita gente:

e se na ocasião presente

se diz, que costas virara

(cousa, em que qualquer repara)

é, pois que a discursar entro,

porque fora do seu centro

jamais cousa alguma pára.

Também diz, que se deu costas

já depois do susto feito

foi, porque certo sujeito

de o prender fazia apostas:

entre pergunta, e respostas

diz mais, que fugira só,

porque na garganta um nó

(que este bem cego seria)

se lhe punha, quando ouvia

aripotá treminó.

Ao Cabocolete iníquo,

antes que em raiva se engafe

lhe fez o cu tafe tafe,

e a bunda fez tico tico:

estava feito um Perico,

porque aqui, e ali se escancha,

sentindo-se muito a mancha,

de quando preso o levavam,

dos rapazes, que gritavam,

pois que é isso? vai na lancha!