CELEBRA O POETA O CASO, QUE SUCCEDEU A HUA FREYRA DO MESMO CONVENTO A QUEM OUTRAS FREYRAS TRAVESSAS LHE MOLHARAM O TOUCADO, COM QUE PERTENDIA FALLAR À SUA AMANTE.

By Gregório de Matos Guerra

Pelo toucador, clamais,

e em confusão me meteis,

porque se enxuto o quereis

como sobre ele chorais?

quanto mais suspiros dais,

novos extremos fazendo,

vai vosso dano crescendo,

e é mui mal esperdiçado

sobre a perda do toucado

andar pérolas perdendo:

Mas um peito lastimado,

que tem em pouco essas sobras,

dirá, pois chora por dobras,

que o deixem chorar dobrado:

ditoso o vosso toucado

nas lágrimas, que chorastes,

pois tão bem desempenhastes

as vezes, que vos ornou,

que se até aqui vos toucou,

de pérolas o toucastes.

Porventura, Nise, achais,

que mais bela a touca estava

ao tempo, que vos toucava,

do que agora a toucais?

não vedes, não reparais,

que aqueles vãos ornamentos

umedecidos, e lentos

de aljôfares derretidos,

o que estão de mui caídos,

isso têm de mais alentos?

Chorais com razão tão pouca,

que estão todos murmurando,

que andais as toucas lançando

não mais que por uma touca

se por Sílvio ides louca,

porque arnante vos anele,

e mais por vós se desvele,

vinde à grade destoucada,

e verá, que de empenhada

botais as toucas por ele.

Inundais as escarlatas

à guisa da bela aurora,

como se mui novo fora,

que nágua se banhem patas:

se as Professas, ou Donatas,

que as patas vos mergulharam

tanto a peça celebraram,

zombai das suas invejas,

não se gabem malfazejas,

que de patas nos viraram.