CELEBRA SACODINDO DE CAMINHO O DEMAZIADO BEBER DESTE BALTHEZAR VANIQUE SENDO HOM...

By Gregório de Matos Guerra

Senhor confrade da bota,

muito a Deus dos Céus deveis,

quando mil gotas bebeis,

e vos doeis de uma gota!

se a vossa alma tão devota

de beber, e emborrachar

houvesse Deus de igualar

o castigo co pecado,

gotas vos houvera dado,

como areias tem o mar.

Sois tão grande borrachão,

e em beber tão desmedido,

que trocais, o que heis comido

pelo vinho, que vos dão:

vomitais o vinho, e o pão

com repugnância mui pouca,

e a razão, que vos provoca,

é, que uma vez o bebeis,

e vomitando o quereis,

que outra vez vos torne à boca.

Quem por vinho vomitado

tanto faz, e tanto gosta,

também gostará da bosta,

também do vinho mijado:

se não fora o vinho aguado

de tão grande hidropisia,

creio, que se guardaria,

e um Flamengo Arcopagita,

o que num dia vomita,

o bebera noutro dia.

Sois tão grande bebadinho,

e tão manhoso em vertê-lo,

que bebê-lo, e desbebê-lo

é só por dobrar o vinho:

quando o levais de caminho

vai claro como do torno,

e quando do ventre morno

pela boca o vomitais,

então mui sujo o tragais

como purga de retorno.

O vinho há de ser pagão,

e não serve o vinho aguado,

porque é vinho batizado,

que enfada por ser cristão:

dai ao demo o beberrão,

que com dores, e trabalhos

não busca ao beber atalhos,

pois sem temor de acabar

crê, que muito há de durar,

porque está de vinha-d’alhos.

Sempre tive grande mágoa

em cuidar, que um mosquitinho

quer antes morrer no vinho,

do que estar vivendo n’água:

se o bofe se vos enxágua

com beber, e mais beber,

virei com isso a entender,

que em Belga, donde viestes,

de algum mosquito nascestes,

e mosquito heis de morrer.