CELEBRA SACODINDO DE CAMINHO O DEMAZIADO BEBER DESTE BALTHEZAR VANIQUE SENDO HOM...
Senhor confrade da bota,
muito a Deus dos Céus deveis,
quando mil gotas bebeis,
e vos doeis de uma gota!
se a vossa alma tão devota
de beber, e emborrachar
houvesse Deus de igualar
o castigo co pecado,
gotas vos houvera dado,
como areias tem o mar.
Sois tão grande borrachão,
e em beber tão desmedido,
que trocais, o que heis comido
pelo vinho, que vos dão:
vomitais o vinho, e o pão
com repugnância mui pouca,
e a razão, que vos provoca,
é, que uma vez o bebeis,
e vomitando o quereis,
que outra vez vos torne à boca.
Quem por vinho vomitado
tanto faz, e tanto gosta,
também gostará da bosta,
também do vinho mijado:
se não fora o vinho aguado
de tão grande hidropisia,
creio, que se guardaria,
e um Flamengo Arcopagita,
o que num dia vomita,
o bebera noutro dia.
Sois tão grande bebadinho,
e tão manhoso em vertê-lo,
que bebê-lo, e desbebê-lo
é só por dobrar o vinho:
quando o levais de caminho
vai claro como do torno,
e quando do ventre morno
pela boca o vomitais,
então mui sujo o tragais
como purga de retorno.
O vinho há de ser pagão,
e não serve o vinho aguado,
porque é vinho batizado,
que enfada por ser cristão:
dai ao demo o beberrão,
que com dores, e trabalhos
não busca ao beber atalhos,
pois sem temor de acabar
crê, que muito há de durar,
porque está de vinha-d’alhos.
Sempre tive grande mágoa
em cuidar, que um mosquitinho
quer antes morrer no vinho,
do que estar vivendo n’água:
se o bofe se vos enxágua
com beber, e mais beber,
virei com isso a entender,
que em Belga, donde viestes,
de algum mosquito nascestes,
e mosquito heis de morrer.