CENSURA QUE FAZ O POETA DESTE TAL CONDE NA SUA DESASTRADA MORTE, LANÇANDO-SE DA ...

By Gregório de Matos Guerra

Tanta virtude excelente

de animoso, e de alentado,

de valeroso soldado,

e de cortesão valente,

viu o mundo, e soube a gente,

que inda que em santo podia

transformar-se a Senhoria,

o Conde o não conseguiu,

porque de noite caiu,

e o Santo cai no seu dia.

Se o Conde caiu de noite,

como o teremos por Santo,

quando a queda um tanto, ou quanto,

teve do divino açoite:

quis Deus, que o Conde se afoite,

porque visse o bom Soldado,

que o Conde de puro honrado

quis, que o visse a própria terra,

quanto arrojado na guerra,

na paz tão precipitado.

Ícaro da nossa guerra

ares corta o Conde só,

Ícaro caiu no Pó,

e o Conde caiu na terra:

se, porque o rio o enterra,

o nome lhe ficou dado

de Ícaro ter sepultado:

assim porque a terra dura

deu ao Conde sepultura,

ficou a terra um condado.

De cera, e pluma se val

Ícaro para viver,

e o Conde para morrer

valeu-se do natural:

quanto a força artificial

da natureza é sobrada

fica a do Conde adiantada,

porque Ícaro quando bóia

faz tragédia de tramóia,

e o Conde de capa, e espada.

Tinha o Conde de morrer;

todo o mortal nisto pára,

e se ele se não matara,

quem lho havia de fazer?

fez bem o Conde a meu ver,

quando ao jardim se arrojou,

e entre as flores expirou:

vento é a vida em rigor,

e como o Conde era flor,

entre as flores acabou.

Se ignorou alguns sentidos,

porque tanto mal se urdiu,

era valido, e caiu,

que o cair é dos validos:

tão certos são, e sabidos

no monte, no lar, na praça

estes reveses da graça,

que é já dos Palácios lei,

que quem da graça d’El-Rei

cai, cai da sua desgraça.