CERTO COMISSARIO DA PRAYA SEU AMAZIO, SABENDO, QUE ANTES DE ELLA IR À SUA CASA, ...
Dá-me, Betica, cuidado,
o desastre, que tivestes,
quando gulosa comestes
o paio salpimentado:
não era inda divulgado
vosso mal, vosso desmaio,
quando eu soube como um raio
de u’as agulhas ferrugentas,
que comestes as pimentas,
mas não gostastes do paio.
Em vinganças tão cruentas
tenho por justas sequelas,
que, a quem dais dor de canelas,
vos dê dores de pimentas:
mais vezes do que duzentas
vos mandou pôr atalaia
o vosso amigo da praia,
e vendo, que o outro malho
vos punha de vinha-d’alho
quis pôr-vos de jiquitaia.
Fez bem vosso barregão,
pois que via com seu olho,
que vínheis com tanto molho,
de botar-lhe o pimentão:
vós vínheis de outra ocasião
que ele viu, e coligiu,
e como tanto o sentiu
(sendo vós sua manceba)
que muito, que vos receba
com puta que te pariu.
Ele vos pôs justamente
Betica, em tanto perigo,
porque se tendes amigo,
não tenhais outro parente:
nem se sofre à boa mente
(inda que sejam subornos
a beleza, e os adornos)
que uma Moça de reclamos
se deite à sombra dos Ramos,
se os Ramos produzem cornos.
E pois vos vejo estalar
tomara agora saber,
em que vaso heis de cozer,
o que haveis de manducar?
eu não hei de lá chegar,
bem que a estrela violenta
me inclina, arrasta, e atenta,
pois tendes vaso tão mau,
que sobre ser bacalhau
tem muchíssima pimenta.
Mas deixada esta matéria,
a saber de vós me alhano,
que é feito daquele abano,
com que à noite da miséria
a vossa negra Quitéria
(sendo na gema do inverno)
vos abanava o interno
do vaso, que em viva chama
vos ardia mais na cama,
que o Avarento no Inferno.