CHORA O POETA A ULTIMA RESOLUÇÃO DE SEU IDOLATRADO IMPOSSIVEL TAM MERECEDORA DES...

By Gregório de Matos Guerra

Alto: divino impossível,

de cuja dificuldade,

formosura, e discrição

qual é maior, não se sabe.

Se impossível pelo estado,

a dificuldade é grande,

pois casada, e a teu gosto

que força há de conquistar-te?

Se impossível na dureza,

a ser pedra incontrastável,

basta ser de lavradora,

para que nunca se lavre.

Se impossível pelo estorvo

da família vigilante

é o impossível maior,

que ao meu coração combate.

Mas se és, divino impossível,

de tão alta divindade,

creio, que esperanças mortas

ressurgirás a milagres.

Se és um milagre composto

de neve incendida em sangue,

e sempre o Céu de tou rosto,

mostra dois astros brilhantes:

As mãos umas maravilhas,

um par de jesmins as faces,

o corpo um garbo vivente.

os pés um vivo donaire:

Se são milagres divinos,

Francelinda, as tuas partes,

para viver, quem te adora,

que farás. senão milagres!

Dá-me por milagre a vida

na esperança de lograr-te,

verás ressurgir com glória

uma esperança cadáver.

E se és enigma escondido,

eu sou segredo inviolável,

pois ouves, e não percebes,

quem te diz, o que não sabes.

De que selve a discrição,

com que o teu nome ilustraste,

sendo a Palas destes tempos,

Minerva destas idades.

Discorre em tuas memórias

os dias, manhãs, e tardes,

que foste emprego de uns olhos,

que mudamente escutaste.

Porque uns olhos, que atrevidos

registam a divindade

são sempre d’alma rendida

emudecidas linguagens.

Lembra-te, que em tua casa,

onde cortês me hospedaste,

não me guardaste o seguro

das leis da hospitalidade.

Por que matando-me entonces

traidoramente suave

me calei eu, por guardar

essas leis, que tu violaste.

Se inda não cais, em quem sou,

porque me estrova explicar-me

de uma parte o teu decoro,

e o meu temor de outra parte.

Terei paciência por ora,

té que me tire os disfarces

Amor, que com se vendar,

me deu lições de vendar-me.

E se penetras, quem sou,

porque já o conjeturaste,

e escolhes de pura ingrata

não crer-me, por não pagar-me:

Recorre à tua beleza,

que sei, que ela há de obrigar-te

a crer, que em minhas finezas

corto por multas verdades.

E pois me toca pesar

as tuas dificuldades,

e a ti tua formosura

e discrição pesar cabe.

Julguemos ambos de dois,

qual dá cuidado mais grande,

formosura, e discrição,

ou tantas dificuldades.