Clarões apagados

By João da Cruz e Sousa

Flor de planta aromática, sinistra,

Nascida nas inóspitas geleiras,

Célebre flor que o meu Ideal registra,

Trepadeira das raras trepadeiras.

Serpe nervosa entre as nervosas serpes,

Carnívora bromélia da luxúria

De gozo tetaniza como as herpes

Da tua boca a polpa atra e purpúrea.

O teu amor, que lembra vinhos de Hebe

E essa áspera feição do abeto fusco,

Como um réptil que salta numa sebe,

Saltou-me ao peito, impetuoso e brusco.

Eu ia por estranhos descampados,

Por extensos desertos impassíveis,

Na trágica visão dos naufragados

Perdidos entre os temporais terríveis.

Sem rumo certo, num sombrio inferno,

Sozinho, sobre a desolada areia

Arrastando a existência, de onde, eterno

Um sapo coaxa e um rouxinol gorjeia.

Quando tu de repente, então surgiste

Beleza das belezas redentoras,

Tendo essa meiga formosura triste

Das formosas e flébeis pecadoras.

Fosse talvez uma tremenda insânia

Tão alta erguer o meu amor, tão alto;

Mas este coração frio, da Ucrânia,

Anelava galgar o céu de um salto.

E fui, galguei, subi, voei na altura,

Além dos verdes píncaros do monte,

Donde resplende a tua formosura

No clarão das estrelas do horizonte.

Foi o mesmo que se eu num templo entrasse

E aí num formidável sacrilégio,

As angélicas vestes arrancasse

Das santas de áureo diadema régio.

Como um leão sem juba e garra, preso,

Na indiferença, já morreu comigo

Todo esse amor profundamente aceso

Na ideal constelação de um sonho antigo.

Apenas pelo saara imorredouro

Do longínquo passado, ergue, altaneira,

Majestosa folhagem no sol d’ouro,

Dessas recordações a alta palmeira...