COLHE-SE DO ESTILO DESTAS OBRAS QUE O AMOR DESTA DAMA NÃO INQUIETAVA AO POETA.
Babu: como há de ser isto?
eu já me sinto acabar,
e estou tão intercadente,
que não chegue até amanhã.
Morro de vossa beleza,
se ela me há de matar,
como creio, que me mata,
formosa morte será.
Mas seja formosa, ou feia,
se o Deão me há de enterrar,
por mais formosa que seja,
sempre caveira será.
Todos aqui desconfiam
tudo é já desconfiar
da minha vida os doutores
e eu do vosso natural.
Desconfio, de que abrande
vosso rigor pertinaz,
e a minha vida sem cura
sem dúvida acabará.
Porque se estais incurável,
e tão sem remédio vai
o achaque de não querer-me,
e o mal de querer-me mal:
Que esperança posso ter,
ou que remédio há capaz,
se vós sois a minha vida,
e morreis por me matar?
Amor é união das almas
em conformidade tal,
que, porque estais sem remédio,
por contágio me matais.
Curai-me do mal querer-me,
e do fastio, em que estais
à minha triste figura,
que ao demo enfastiará.
Comei, e seja o bocado,
que com gosto se vos dá,
porque em vós convalescendo,
então me hei de eu levantar.
Assim sararemos ambos,
porque se vós enfermais
pelo contágio, o remédio
por simpatia será.
Vós, Babu, virais-me as costas?
pois eu feito outro que tal,
estou às portas da morte,
e a fala me falta já.
Quero fazer testamento;
mas já não posso falar,
que vós por costume antigo
sempre a fala me quitais.
Mas testarei por acenos,
que tudo em direito há
e se por louco não posso,
posso por louco em amar.
Todos meus bens, se os tivera.
os deixara a vós não mais,
mas deixo-vos para os outros,
que é, o que posso deixar.
Se hei de deixar-me a vós
quantos bens no mundo há,
em vos deixar a vós mesma,
arto deixada ficais.
Em sufrágios da minha alma
não gasteis o cabedal,
que aos vossos rigores feito,
penas não hei de estranhar.
Mas se por minhas virtudes,
ou se por vos jejuar,
ou se por tantas novenas,
que à vossa imagem fiz já:
Vos mereço algum perdão
dos pecados, que fiz cá,
assim em vos perseguir,
como em vos desagradar:
Com as mãos postas vos peço,
que no vosso universal
juízo mandeis minha alma
ao vosso céu descansar.
Não a mandeis ao inferno
que arto inferno passou cá,
Adeus, apertai-me a mão,
que eu já vou a enterrar.