COM O EXEMPLO DO LACRIMOSO PENHASCO ENTRA A SUSPIRAR, FAZ PAUSA, E RESOLVE ULTIMAMENTE A PROSEGUIR, RESGATANDO O SILENCIO A NOBREZA DA CAUSA.

By Gregório de Matos Guerra

Suspiros, que pertendeis

Com tanta despesa de ais,

Se quando um alívio achais,

todo um segredo rompeis?

Não vedes, que a opinião

sente o segredo rompido,

quando no alívio adquirido

Consta a sua perdição?

Não vedes, que se acompanha

o desafogo do peito,

mais se perde no respeito,

do que no alívio se ganha?

Não vedes, que o suspirar

diminui o sentimento,

usurpando ao rendimento

tudo, quanto dais ao ar?

Mas direis, que uma tristeza

publica a sua desgraça,

porque o silêncio não faça

inútil sua fineza.

Direis bem, que o padecer

da beleza é pundonor,

e guardar segredo à dor

será agravar seu poder.

Eia, pois, coração louco,

suspirai, dai vento ao vento,

que tão grande sentimento

não periga com tão pouco.

Quem disser, que suspirais

por dar à dor desafogo,

dizei-lhe, que tanto fogo

ao vento se acende mais.

Não caleis, suspiros tristes,

que importa pouco o segredo

e jamais me vereis ledo,

como algum tempo me vistes.