COM VISTA CLARA SACODE OS ENTREMETTIDOS, MENCIONANDO ALGUNS DE SEOS PATRICIOS, Q...

By Gregório de Matos Guerra

Como nada vêem

e andam sempre aos tombos

querem os mazombos

que eu cegue também:

não temo ninguém,

e se os matulões

hão medo a prisões,

eu sou de carona:

forro minha cona

Olhem para a terra

que está nestes anos

gafa de maganos

que El-Rei o desterra:

O pano da Serra

em sedas trocou

quem lá sempre andou

em uma atafona:

forro minha cona

Verão um sandeu

que quer sem disputa

ser filho da puta,

por não ser judeu:

se hábitos perdeu

por ser cristão-novo,

a mim todo o povo

de velho me abona:

forro minha cona

Aquele é de ver,

que apuros aqueles

explica por eles,

quanto quer dizer:

Não posso sofrer

que um tangarumanga

use de pendanga

com língua asneirona:

forro minha cona

Verão um jumento

de figura rara,

que anda sempre a vara,

por lhe darem vento:

Notável portento

neste tal se enxerga,

pois trás a chomberga

a barba capona:

forro minha cona

Verão um vilão

na dona montanha

farto de castanha

faminto de pão:

e se bem à mão

com bois e arado

cultivou o prado

de Flora, e Pamona:

forro minha cona

Clérigo verão

que porque em Cantabra

nasceu de uma cabra

cresceu a cabrão:

Tão fino ladrão

que até a filha alheia

com ser cananéia

furta à mãe putona:

forro minha cona

Verão um Doutor

em Judá nascido

mais entremetido

que um grande fedor:

Grande assistidor

de Igreja festeira,

que ao longe lhe cheira

como mangerona:

forro minha cona

Verão um Galego

grande salvajola,

veste à mariola,

anda ao palacego:

Fidalgo Noroego

em cruz de Calvário,

que um certo falsário

nos peitos lhe entona:

forro minha cona

Verão um inocente,

que a fidalgo vai

e calando o pai

a mãe diz somente:

A este impertinente

lembro-lhe o Godim

do pai matachim,

e a mãe vendilhona:

forro minha cona

Verão um pasguate

monstro de ouro, e prata,

que sendo uma pata,

é filho de um gato:

A renda de um trato

pôs por seu regalo

um burro a cavalo

de sela mamona:

forro minha cona

Entre outros ladrões

verão um letrado

na mente graduado

de quatro asneirões:

Na cara pontões

na idéia nem ponto,

e ou tonto, ou não tonto,

de rico blasona:

forro minha cona

Verão um alvar

fidalgo tendeiro,

que o pai sapateiro

lhe fez o solar:

Cônego ultramar

por duas patacas

ferrou ontem atacas

e hoje se entona:

forro minha cona

Verão outro Zote,

a quem Satanás

por culpas de atrás

fará galeote:

O tal sacerdote

só prega a doutrina

da lei culatrina,

que ensina, e abona:

forro minha cona

Verão um Guinéu

moço assalvajado

fidalgo estirado

por quedas, que deu:

O Góis lhe meteu

sogro do seu jeito

a torto, e direito

nobreza sevona:

forro minha cona

Verão um Gavacho

com sede tamanha,

que a palma se ganha

ao maior borracho:

Beca sem empacho

que no mar caiu,

e o mar lhe fugiu

por ser borrachona:

forro minha cona

Verão outrossim

entregue ao diabo

um esfola-rabo

pobre colomim:

Mau vilão, ruim,

duas caras trás

ambas muito más

que tudo inficiona:

forro minha cona

Verão borundangas

que o mundo podia

vender à Bahia

três mil bugigangas:

Figurões de mangas

que não vi em meus dias

nas tapeçarias

de Rasa e Pamplona:

forro minha cona.