COMO NÃO PÔDE O POETA LOGRAR, LHE DIZIA ESTAS, E OUTRAS INJURIAS, COMO O FOY O S...

By Gregório de Matos Guerra

Não posso cobrar-lhes medo,

Joana, aos vossos focinhos,

que como sois tão formosa,

cede à verdade o fingido.

Tanta olhadura através

tanto focinho torcido,

tanto pescoço empinado,

tanto esguelhado beicinho:

São modos tão estrangeiros,

alheios, e peregrinos

das perfeições naturais

do vosso rosto divino;

Que jamais podem fazer

no meu peito amante, e fino

retorceder as tenções,

nem arribar os desígnios.

Sempre caminhando avante,

nunca deixando o caminho

ando atrás de ver, se posso

chegar a vosso cativo.

Se me ferrais esta cara

cum favorzinho de riso,

me hei de rir de farto então

do mundo, e seus regozijos.

Hei de pôr-me a rir então

de sorte, que a riso fito

me hão de ter em todo o orbe

por Demócrito dos risos.

Olharei para Beleta,

e me rirei dos meninos,

que a andam sempre beliscando

qual Mona com seus bugios.

Olharei para Apolônia,

e de a ver entre os corrilhos

de tanta canastra honrada,

que é a nobreza do sítio.

Rirei de ver cada um

ir-se daqui despedido,

entonces mais carregado,

porque entonces mais vazio.

A eles pelas estradas

suspirando pelo sítio,

a ela pelos oiteiros

zombando de tais suspiros.

A eles tomando o tole

para o sertão fugitivos,

tanto fugindo dos anos,

como da conta fugindo.

A ela por capoeiras

estreando cos meninos

a baetinha dos pobres

a Serafina dos ricos.

Para a Úrsula olharei

e rirei de a ver no Sítio

parafusando caralhos

pela tarraxa do embigo.

Rirei de versos amantes,

rirei de ver os queridos,

que tendo-se por ditosos,

são em seus gostos mofinos.

E só feliz eu serei,

se logro os vossos carinhos,

e me plantais nesta cara

da vossa boca um beijinho.

Tende-me na vossa graça,

e a queixa se torne em riso,

a malquerença em amor,

e o desfavor em carinho.