Confidências
Põe tua mão no meu peito...
Vê que bate um coração
Que quando está satisfeito
É por ti, por outras não!
Tu deixas ao desamparo
Nas horas de maior dor,
Com esse teu peito avaro,
Que tanto sofre de amor.
Em vez de seres o arrimo
Do meu profundo sofrer,
Esqueces quanto eu te estimo,
Sem que eu possa te esquecer.
Agora estás a meu lado,
Agora estás junto a mim;
Já não sou tão desgraçado
E posso viver, enfim!
Perdoo-te esse tormento
De tantos dias fatais
Em que tu no pensamento
Nem me trouxeste jamais.
Perdoo-te a indiferença
E todo o desprezo atroz
Que deste à saudade imensa
E às ânsias da minha voz.
Tudo, tudo te perdoo
Porque torno a ser feliz;
Porque volta aquele voo
Dos nossos tempos febris.
Sinto-te agora bem perto,
Bem presa nos braços meus,
Por baixo de um céu aberto
Que me lembra os olhos teus.
A funda melancolia
Que me acabrunha o existir,
Vem, com os raios da alegria
Do teu amor, extinguir.
Que todo o passado agora
Rebente em flores — e pois
Que seja uma nova aurora
Sobre as almas de nós dois.
Que esse amor, que esse desejo
Que outrora nos inflamou,
Se outrora parou num beijo
Num beijo, continuou.
Vem contrita e piedosa
E compassiva e leal
E misericordiosa,
Com teu amor virginal.
Que isto vai ser um martírio,
Nem eu sei o que será,
Minha casta flor do lírio,
Nem como acabará.
Mas só tu mereces tanto
De sacrifícios e até
Que eu, com lágrimas, o encanto
Deste amor encha de fé.
Só tu tens tido constância
Durante as separações
Dando-me brilho e fragrância
Ao resto das ilusões.
Pois Tu és tão pura e boa
E tanta virtude tens
Que o teu amor me abençoa
E dá-me o maior dos bens.
Porque nunca achei na vida,
Tanto (que) em vão procurei
Uma alma compadecida
Como essa que em ti achei.
Perdido, errante no mundo,
Por longe, no norte e sul,
Vivi, desse amor profundo
De primaveras do Azul.
Afinal, bom é que eu volte
Dos teus afagos ao sol
E da crença as asas solte
Num voo de rouxinol.
Que eu de mais nada preciso
Para viver junto a ti
Senão do astro de um sorriso
Que já nos teus olhos vi.
Nada mais preciso e quero
Para adorar-te, sequer,
Senão do afeto sincero
De tua alma de mulher.
Não do luxo e da riqueza,
De galas e de ouropéis,
Nem mesmo até da beleza,
Que são cousas infiéis!
Mas da graça do semblante,
Da asa dum olhar sutil,
Que passa febricitante
Num enleio senhoril.
Dos caminhos e atrativos,
Desse vago não sei quê
Que forma os encantos vivos,
Naturais, que ninguém vê.
Dum doce enlevo infinito,
Como se sente em Jesus,
E que abre um clarão bendito
De suavíssima luz.
Assim te quero e procuro,
Desejo e busco outra vez:
Com teu olhar assim puro,
Simples nessa candidez.
E peço ao mar bravo e rude
Todo o esplendor singular
De vigorosa saúde,
A fim de poder te amar!