Confidências

By João da Cruz e Sousa

Põe tua mão no meu peito...

Vê que bate um coração

Que quando está satisfeito

É por ti, por outras não!

Tu deixas ao desamparo

Nas horas de maior dor,

Com esse teu peito avaro,

Que tanto sofre de amor.

Em vez de seres o arrimo

Do meu profundo sofrer,

Esqueces quanto eu te estimo,

Sem que eu possa te esquecer.

Agora estás a meu lado,

Agora estás junto a mim;

Já não sou tão desgraçado

E posso viver, enfim!

Perdoo-te esse tormento

De tantos dias fatais

Em que tu no pensamento

Nem me trouxeste jamais.

Perdoo-te a indiferença

E todo o desprezo atroz

Que deste à saudade imensa

E às ânsias da minha voz.

Tudo, tudo te perdoo

Porque torno a ser feliz;

Porque volta aquele voo

Dos nossos tempos febris.

Sinto-te agora bem perto,

Bem presa nos braços meus,

Por baixo de um céu aberto

Que me lembra os olhos teus.

A funda melancolia

Que me acabrunha o existir,

Vem, com os raios da alegria

Do teu amor, extinguir.

Que todo o passado agora

Rebente em flores — e pois

Que seja uma nova aurora

Sobre as almas de nós dois.

Que esse amor, que esse desejo

Que outrora nos inflamou,

Se outrora parou num beijo

Num beijo, continuou.

Vem contrita e piedosa

E compassiva e leal

E misericordiosa,

Com teu amor virginal.

Que isto vai ser um martírio,

Nem eu sei o que será,

Minha casta flor do lírio,

Nem como acabará.

Mas só tu mereces tanto

De sacrifícios e até

Que eu, com lágrimas, o encanto

Deste amor encha de fé.

Só tu tens tido constância

Durante as separações

Dando-me brilho e fragrância

Ao resto das ilusões.

Pois Tu és tão pura e boa

E tanta virtude tens

Que o teu amor me abençoa

E dá-me o maior dos bens.

Porque nunca achei na vida,

Tanto (que) em vão procurei

Uma alma compadecida

Como essa que em ti achei.

Perdido, errante no mundo,

Por longe, no norte e sul,

Vivi, desse amor profundo

De primaveras do Azul.

Afinal, bom é que eu volte

Dos teus afagos ao sol

E da crença as asas solte

Num voo de rouxinol.

Que eu de mais nada preciso

Para viver junto a ti

Senão do astro de um sorriso

Que já nos teus olhos vi.

Nada mais preciso e quero

Para adorar-te, sequer,

Senão do afeto sincero

De tua alma de mulher.

Não do luxo e da riqueza,

De galas e de ouropéis,

Nem mesmo até da beleza,

Que são cousas infiéis!

Mas da graça do semblante,

Da asa dum olhar sutil,

Que passa febricitante

Num enleio senhoril.

Dos caminhos e atrativos,

Desse vago não sei quê

Que forma os encantos vivos,

Naturais, que ninguém vê.

Dum doce enlevo infinito,

Como se sente em Jesus,

E que abre um clarão bendito

De suavíssima luz.

Assim te quero e procuro,

Desejo e busco outra vez:

Com teu olhar assim puro,

Simples nessa candidez.

E peço ao mar bravo e rude

Todo o esplendor singular

De vigorosa saúde,

A fim de poder te amar!