CONTINUA O POETA NA MESMA EMPREZA DE SER ADMITIDO FAZENDO GALA DO SEU MESMO DESP...

By Gregório de Matos Guerra

Não me queixo de ninguém,

se bem, que por vida minha

que bastante causa tinha

para queixar-me de alguém.

Queixar-me a mais não poder

e despedir o pesar:

amar, querer, e queixar

e queixar-se do querer:

eu, que isto sei entender,

e alcanço, que me está bem

não queixar-me de um desdém

por mostrar, que estimo a causa,

dando a meus alívios pausa,

Não me queixo de ninguém.

Se me queixo de uma dor,

abro a porta a meu tormento,

e não perco um sentimento

porquanto gostos dá Amor:

vencer a pena e melhor,

que render-se a uma dorzinha:

e quando a Parca mesquinha

da vida os fios me corte,

passarei por minha morte,

se bem, que por vida minha.

Se Clóri de mui querida

é alma do meu viver,

porque a morte hei de temer

dada pelas mãos da vida?

que vida mais bem perdida,

que dar eu, não sendo minha,

a vida, a quem ma sustinha?

e quando não baste isto,

sei eu, por havê-la visto,

Que bastante causa tinha.

Bastante causa tivera,

já que não para queixar-me,

para morrer, e matar-me

por calar pena tão fera:

e inda que a fineza era

calar a rigor, de quem

me mata a puro desdém,

calar por mais perfeição

não tira o ter eu razão,

Para queixar-me de alguém.