CONTINUA O POETA NA MESMA EMPREZA DE SER ADMITIDO FAZENDO GALA DO SEU MESMO DESPREZO.
Não me queixo de ninguém,
se bem, que por vida minha
que bastante causa tinha
para queixar-me de alguém.
Queixar-me a mais não poder
e despedir o pesar:
amar, querer, e queixar
e queixar-se do querer:
eu, que isto sei entender,
e alcanço, que me está bem
não queixar-me de um desdém
por mostrar, que estimo a causa,
dando a meus alívios pausa,
Não me queixo de ninguém.
Se me queixo de uma dor,
abro a porta a meu tormento,
e não perco um sentimento
porquanto gostos dá Amor:
vencer a pena e melhor,
que render-se a uma dorzinha:
e quando a Parca mesquinha
da vida os fios me corte,
passarei por minha morte,
se bem, que por vida minha.
Se Clóri de mui querida
é alma do meu viver,
porque a morte hei de temer
dada pelas mãos da vida?
que vida mais bem perdida,
que dar eu, não sendo minha,
a vida, a quem ma sustinha?
e quando não baste isto,
sei eu, por havê-la visto,
Que bastante causa tinha.
Bastante causa tivera,
já que não para queixar-me,
para morrer, e matar-me
por calar pena tão fera:
e inda que a fineza era
calar a rigor, de quem
me mata a puro desdém,
calar por mais perfeição
não tira o ter eu razão,
Para queixar-me de alguém.