CONTRA OUTROS SATIRIZADOS DE VÁRIAS PENAS QUE O ATTRIBUHIRÃO AO POETA, NEGANDO-L...

By Gregório de Matos Guerra

Saiu a sátira má,

e empurraram-ma os preversos

que nisto de fazer versos

eu só tenho jeito cá:

noutras obras de talento

eu sou só o asneirão,

em sendo sátira, então

eu só tenho entendimento.

Acabou-se a Sé, e envolto

na obra o Sete Carreiras

enfermou de caganeiras,

e fez muito verso solto:

tu, que o Poeta motejas,

sabe, que andou acertado

que pôr na obra louvado

é costume das Igrejas.

Correm-se muitos carneiros

na festa das Onze mil,

e eu com notável ardil

não vou ver os cavaleiros:

não vou ver, e não se espantem,

que algum testemunho temo,

sou velho, pelo que gemo,

não quero, que mo levantem.

Querem-me aqui todos mal,

mas eu quero mal a todos,

eles, e eu por nossos modos

nos pagamos tal por qual:

e querendo eu mal a quantos

me têm ódio tão veemente

o meu ódio é mais valente,

pois sou só, e eles são tantos.

Algum amigo, que tenho,

(se é, que tenho algum amigo)

me aconselha, que, o que digo,

o cale com todo o empenho:

este me diz, diz-me estoutro,

que me não fie daquele,

que farei, se me diz dele,

que me não fie aqueloutro.

O Prelado com bons modos

visitou toda a cidade,

é cortesão na verdade,

pois nos visitou a todos:

visitou a pura escrita

o Povo, e seus comarcãos,

e os réus de mui cortesãos

hão de pagar a visita.

A Cidade me provoca

com virtudes tão comuas:

há tantas cruzes nas ruas,

quantas eu faço na boca:

os diabos a seu centro

foi cada um por seu cabo,

nas ruas não há um diabo,

há os das portas a dentro.

As damas de toda a cor

como tão pobre me vêem,

as mais lástima me têm,

as menos me têm amor:

o que me tem admirado

é, fecharam-me o poleiro

logo acabado o dinheiro,

deviam ter-mo contado.