CONTRA OUTROS SATIRIZADOS DE VÁRIAS PENAS QUE O ATTRIBUHIRÃO AO POETA, NEGANDO-L...
Saiu a sátira má,
e empurraram-ma os preversos
que nisto de fazer versos
eu só tenho jeito cá:
noutras obras de talento
eu sou só o asneirão,
em sendo sátira, então
eu só tenho entendimento.
Acabou-se a Sé, e envolto
na obra o Sete Carreiras
enfermou de caganeiras,
e fez muito verso solto:
tu, que o Poeta motejas,
sabe, que andou acertado
que pôr na obra louvado
é costume das Igrejas.
Correm-se muitos carneiros
na festa das Onze mil,
e eu com notável ardil
não vou ver os cavaleiros:
não vou ver, e não se espantem,
que algum testemunho temo,
sou velho, pelo que gemo,
não quero, que mo levantem.
Querem-me aqui todos mal,
mas eu quero mal a todos,
eles, e eu por nossos modos
nos pagamos tal por qual:
e querendo eu mal a quantos
me têm ódio tão veemente
o meu ódio é mais valente,
pois sou só, e eles são tantos.
Algum amigo, que tenho,
(se é, que tenho algum amigo)
me aconselha, que, o que digo,
o cale com todo o empenho:
este me diz, diz-me estoutro,
que me não fie daquele,
que farei, se me diz dele,
que me não fie aqueloutro.
O Prelado com bons modos
visitou toda a cidade,
é cortesão na verdade,
pois nos visitou a todos:
visitou a pura escrita
o Povo, e seus comarcãos,
e os réus de mui cortesãos
hão de pagar a visita.
A Cidade me provoca
com virtudes tão comuas:
há tantas cruzes nas ruas,
quantas eu faço na boca:
os diabos a seu centro
foi cada um por seu cabo,
nas ruas não há um diabo,
há os das portas a dentro.
As damas de toda a cor
como tão pobre me vêem,
as mais lástima me têm,
as menos me têm amor:
o que me tem admirado
é, fecharam-me o poleiro
logo acabado o dinheiro,
deviam ter-mo contado.