-coração

By João da Cruz e Sousa

Sobre o seio vital da terra que fumega

Avança o trem de ferro o bojo formidável

E na febre voraz e na vertigem cega

Arroja-se veloz ao Templo imperscrutável.

Tudo acorda ao estridor dos aços inflamados,

Dos rígidos metais ao retumbante berro

Com que ele agita e faz solavancar os prados

Com seus largos pulmões flamívomos, de ferro.

Ganha relvas e vales, brenhas e montanhas,

O bramido de fogo ao espaço arremessando,

Um bramido feroz de vibrações estranhas

De sinistro animal pré-histórico bufando.

Brame e tremendamente afora vai bramindo,

Dentre a noite a correr ou dentre o sol profundo;

E os ventres colossais dos túneis investindo

Vão perder-se afinal nas amplidões do mundo...

Da vida das paixões na elétrica corrente

Iguais ao trem de ferro há corações que correm,

Que arrojam-se febris no gozo de repente

E perdem-se no mundo e loucamente morrem!