Coração crente
Tarde de inverno. A chuva tamborila
De uma maneira atroz por sobre a vila...
E o vento vai as árvores vergando,
E, lépido passa, entre elas, soluçando...
Cobriu-se o céu de nuvens pardacentas
Como se fossem asas agourentas,
De muitos, muitos pássaros tristonhos
Que viessem abafar os nossos sonhos.
E as estradas tornaram-se ribeiros;
E os campos verdes, negros atoleiros...
Correm pelas estradas velhos troncos
Da água a subir, em formidáveis roncos.
Os bois, as vacas, e as gráceis ovelhas
Correm com os jumentos, em parelhas...
E sob os ramos curvos do balcedo
Tremem todos os pássaros, de medo.
Parece tudo se acabar nas águas
Que abrem sinistras, desolantes fráguas.
Ouvem-se rezas tristes, soluçadas,
Vindas de algumas casas destelhadas.
E o povo julga que é chegado o instante
De morrer todo o mundo agonizante.
Mas, entretanto, numa casa existe
Um coração que não se encontra triste;
Que, diante das águas não se aterra,
Antes na crença a alma branca encerra;
Antes na crença excelsa permanece,
E vê a verde esperança que floresce
Para sempre bendita e alvissareira,
Como se fosse um ramo de oliveira.
E assim, em vez de soluçar aos gritos,
Eleva as mãos em palma aos céus benditos
De olhos por toda a fé iluminados,
E pela crença excelsa abençoados,
Desfraldando o estandarte da esperança
Que tudo quanto espera sempre alcança.
É que em redor de si teus olhos vendo,
Foi a tua bondade compreendendo,
Pois lhe disseste que esperasse a hora
Do seu filho querido se ir embora,
Ele que estava já com os pés bem juntos,
E morar iria com os defuntos...
E o pobrezinho do rapaz morrera
De manhã cedo, e entre clarões de cera
Ali se achava à espera que o levassem
À cova fria, e nela o enterrassem...
E ao escutares a prece terna e casta,
Tu, cujo coração sempre te arrasta
À pratica do Bem, Nossa Senhora,
Ao teu filho rogaste que, nessa hora,
Toda a chuva cessasse, e o próprio vento;
E o sol rasgasse o espaço pardacento,
E viesse com clarões e com carinho
Secar as grandes águas do caminho...
E assim aconteceu, gloriosamente:
— Tornou-se a tarde bela e resplandente.
E, quando o rapazinho entrou na cova,
Surgiu no espaço azul a lua nova,
Em linhas curvas de galera de ouro,
Na qual, Nossa Senhora, regressaste,
Entre saudosos cânticos em coro,
Indo contigo Aquele que buscaste.