Coração crente

By Juvêncio de Araújo Figueredo

Tarde de inverno. A chuva tamborila

De uma maneira atroz por sobre a vila...

E o vento vai as árvores vergando,

E, lépido passa, entre elas, soluçando...

Cobriu-se o céu de nuvens pardacentas

Como se fossem asas agourentas,

De muitos, muitos pássaros tristonhos

Que viessem abafar os nossos sonhos.

E as estradas tornaram-se ribeiros;

E os campos verdes, negros atoleiros...

Correm pelas estradas velhos troncos

Da água a subir, em formidáveis roncos.

Os bois, as vacas, e as gráceis ovelhas

Correm com os jumentos, em parelhas...

E sob os ramos curvos do balcedo

Tremem todos os pássaros, de medo.

Parece tudo se acabar nas águas

Que abrem sinistras, desolantes fráguas.

Ouvem-se rezas tristes, soluçadas,

Vindas de algumas casas destelhadas.

E o povo julga que é chegado o instante

De morrer todo o mundo agonizante.

Mas, entretanto, numa casa existe

Um coração que não se encontra triste;

Que, diante das águas não se aterra,

Antes na crença a alma branca encerra;

Antes na crença excelsa permanece,

E vê a verde esperança que floresce

Para sempre bendita e alvissareira,

Como se fosse um ramo de oliveira.

E assim, em vez de soluçar aos gritos,

Eleva as mãos em palma aos céus benditos

De olhos por toda a fé iluminados,

E pela crença excelsa abençoados,

Desfraldando o estandarte da esperança

Que tudo quanto espera sempre alcança.

É que em redor de si teus olhos vendo,

Foi a tua bondade compreendendo,

Pois lhe disseste que esperasse a hora

Do seu filho querido se ir embora,

Ele que estava já com os pés bem juntos,

E morar iria com os defuntos...

E o pobrezinho do rapaz morrera

De manhã cedo, e entre clarões de cera

Ali se achava à espera que o levassem

À cova fria, e nela o enterrassem...

E ao escutares a prece terna e casta,

Tu, cujo coração sempre te arrasta

À pratica do Bem, Nossa Senhora,

Ao teu filho rogaste que, nessa hora,

Toda a chuva cessasse, e o próprio vento;

E o sol rasgasse o espaço pardacento,

E viesse com clarões e com carinho

Secar as grandes águas do caminho...

E assim aconteceu, gloriosamente:

— Tornou-se a tarde bela e resplandente.

E, quando o rapazinho entrou na cova,

Surgiu no espaço azul a lua nova,

Em linhas curvas de galera de ouro,

Na qual, Nossa Senhora, regressaste,

Entre saudosos cânticos em coro,

Indo contigo Aquele que buscaste.