Coração materno
Que o mundo cheio está de frementes rancores,
De misérias cruéis, e blasfêmias à Luz,
Eu sei, mãe de Jesus.
Por isso vim orar ao pé do teu altar
Tão coberto de flores;
E, enfim, te perguntar umas coisas
A respeito dos que, da escuridão das lousas,
Buscam ansiosamente em tua Casa entrar.
Responde-me Senhora,
Ó Luz Consoladora!
— Irá viver contigo o que matou o irmão?
— E o que foi, neste mundo, um trágico ladrão?
— E o que guardou vinagre e fel no coração?
— E o que nutriu o ódio em viva combustão?
— E o que teve da intriga os assaltos de cão?
— E o que da usura teve a fatal tentação?
— E o que da inveja via os abutres na mão?
— E o que imolou de um corpo as rosas em botão?
— E o que tirou ao pobre a lenha do fogão?
— E aquele que não deu ao mísero um tostão?
— E o que negou ao cego a sua própria mão?
— E o que nunca amparou os passos do ancião?
— E o que negou à criança um pedaço de pão?
— E o que a água guardou em dias de verão?
— E o que jamais pegou nas alças de um caixão?
— E o que sempre sentiu uma alma de vilão?
— E aquele que fechou os olhos à razão?
— E o que negou do Amor o divino clarão?
— E o que disse que andaste em toda a terra, em vão?
— E o que fincou a Cruz no duro e frio chão?
— E quem à Cruz pregou o Sol da Salvação?
— E quem te fez chorar o puro coração?
Esses ficam na mais pesada escuridão;
Ficam na própria terra... Entretanto, se um dia
Desejarem subir, das torturas do inferno
A eterna limpidez dos altos firmamentos,
Pela estrada do amor, nos arrependimentos,
Certamente encontrarão
A sagrada alegria
De um coração materno,
Diante do qual não há pecados sem perdão.