Coração materno

By Juvêncio de Araújo Figueredo

Que o mundo cheio está de frementes rancores,

De misérias cruéis, e blasfêmias à Luz,

Eu sei, mãe de Jesus.

Por isso vim orar ao pé do teu altar

Tão coberto de flores;

E, enfim, te perguntar umas coisas

A respeito dos que, da escuridão das lousas,

Buscam ansiosamente em tua Casa entrar.

Responde-me Senhora,

Ó Luz Consoladora!

— Irá viver contigo o que matou o irmão?

— E o que foi, neste mundo, um trágico ladrão?

— E o que guardou vinagre e fel no coração?

— E o que nutriu o ódio em viva combustão?

— E o que teve da intriga os assaltos de cão?

— E o que da usura teve a fatal tentação?

— E o que da inveja via os abutres na mão?

— E o que imolou de um corpo as rosas em botão?

— E o que tirou ao pobre a lenha do fogão?

— E aquele que não deu ao mísero um tostão?

— E o que negou ao cego a sua própria mão?

— E o que nunca amparou os passos do ancião?

— E o que negou à criança um pedaço de pão?

— E o que a água guardou em dias de verão?

— E o que jamais pegou nas alças de um caixão?

— E o que sempre sentiu uma alma de vilão?

— E aquele que fechou os olhos à razão?

— E o que negou do Amor o divino clarão?

— E o que disse que andaste em toda a terra, em vão?

— E o que fincou a Cruz no duro e frio chão?

— E quem à Cruz pregou o Sol da Salvação?

— E quem te fez chorar o puro coração?

Esses ficam na mais pesada escuridão;

Ficam na própria terra... Entretanto, se um dia

Desejarem subir, das torturas do inferno

A eterna limpidez dos altos firmamentos,

Pela estrada do amor, nos arrependimentos,

Certamente encontrarão

A sagrada alegria

De um coração materno,

Diante do qual não há pecados sem perdão.