COROAVA CATONA TODOS ESTES DOTES DE HUMA CONSTANCIA RARAS VEZES ACHADA EM SIMILH...
Valha o diabo o concerto,
Catona, que assim me tem
desanimado, e confuso
sem esperança, e sem fé.
Vós um concerto fizestes
de nunca o Mano ofender,
com que o negócio está feito,
porém que hei de fazer eu.
Hei de botar-me no mar,
morrer, e perder a Deus,
enforcar-me como Judas
morrendo como infiel.
Hei de ir direito ao inferno,
que me há de condenar Deus
pelo pecado de amar
a uma ingrata cruel.
Querer bem não é pecado,
a vós grande culpa é,
porque se adoro a um bronze,
idólatra venho a ser.
Morra eu, e perca a vida,
vida, e alma perderei,
e folgarei, que se perca
uma alma, que vos quer bem.
Tenho um inferno na vida,
outro na morte terei,
na morte são meus pecados,
na vida vossos desdéns.
Já não tenho medo à morte,
dá-me pouco de morrer,
porque desde que vos vi,
morro, passa já de um mês.
Ou neste, ou no outro inferno,
Catona, tudo é morrer,
lá pelos pecados feitos,
cá pelos que homem não fez.
O mal é, que nem os fiz,
nem espero de os fazer,
nisto está o meu inferno,
que arda, quem culpa não tem.
Já morro, e não é possível
meu testamento fazer,
porque me tirais a fala
cada vez, que vós quereis.
Mas declaro por acenos,
que não vos deixo os meus bens,
porque se vos deixo a vós,
arto deixada estareis.