Crianças negras

By João da Cruz e Sousa

Em cada verso um coração pulsando,

Sóis flamejando em cada verso, e a rima

Cheia de pássaros azuis cantando

Desenrolada como um céu por cima.

Trompas sonoras de tritões marinhos

Das ondas glaucas na amplidão sopradas

E a rumorosa musica dos ninhos

Nos damascos reais das alvoradas.

Fulvos leões do altivo pensamento

Galgando da era a soberana rocha,

No espaço o outro leão do sol sangrento

Que como um cardo em fogo desabrocha.

A canção de cristal dos grandes rios

Sonorizando os florestais profundos,

A terra com seus cânticos sombrios,

O firmamento gerador de mundos.

Tudo, como panóplia sempre cheia

Das espadas dos aços rutilantes,

Eu quisera trazer preso à cadeia

De serenas estrofes triunfantes.

Preso à cadeia das estrofes que amam,

Que choram lágrimas de amor por tudo,

Que, como estrelas, vagas se derramam

Num sentimento doloroso e mudo.

Preso à cadeia das estrofes-quentes

Como uma forja em labareda acesa,

Para cantar as épicas, frementes

Tragédias colossais da Natureza.

Para cantar a angústia das crianças!

Não das crianças de cor de oiro e rosa,

Mas dessas que o vergel das esperanças

Viram secar, na idade luminosa.

Das crianças que vêm da negra noite,

Dum leite de venenos e de treva,

Dentre os dantescos círculos do açoite,

Filhas malditas da desgraça de Eva.

E que ouvem pelos séculos afora

O carrilhão da morte que regela,

A ironia das aves rindo a aurora

E a boca aberta em uivos da procela.

Das crianças vergônteas dos escravos

Desamparadas, sobre o caos, à toa

E a cujo pranto, de mil peitos bravos,

A harpa das emoções palpita e soa.

Ó bronze feito carne e nervos, dentro

Do peito, como em jaulas soberanas,

Ó coração! és o supremo centro

Das avalanches das paixões humanas.

Como um clarim a gargalhada vibras,

Vibras também eternamente o pranto

E dentre o riso e o pranto te equilibras

De forma tal que a tudo dás encanto.

És tu que à piedade vens descendo.

Como quem desce do alto das estrelas

E a púrpura do amor vais estendendo

Sobre as crianças, para protegê-las.

És tu que cresces como o oceano, e cresces

Até encher a curva dos espaços

E que lá, coração, lá resplandeces

E todo te abres em maternos braços.

Te abres em largos braços protetores,

Em braços de carinho que as amparam,

A elas, crianças, tenebrosas flores,

Tórridas urzes que petrificaram.

As pequeninas, tristes criaturas

Ei-las, caminham por desertos vagos,

Sob o aguilhão de todas as torturas,

Na sede atroz de todos os afagos.

Vai, coração! na imensa cordilheira

Da Dor, florindo como um loiro fruto

Partindo toda a horrível gargalheira

Da chorosa falange cor do luto.

As crianças negras, vermes da matéria,

Colhidas do suplício a estranha rede,

Arranca-as do presídio da miséria

E com teu sangue mata-lhes a sede!