DA CAJAIBA FOY CONVIDADO O POETA COM THOMAZ PINTO BRANDÃO E OUTRO CAMARADA MAIS...

By Gregório de Matos Guerra

Fomos a Pernamerim

os três de la vida airada

dous Irmãos, e um Camarada

na Canoa do Rolim:

chegamos ao porto enfim,

e fomos com tal grandeza

banqucteados na empresa,

que eu cri, quando isto passava,

que o homem nos esperava

ao Canto, porém da mesa.

Tal ano, e tal abastança,

tanto dispêndio em tal era,

bem mostra, que estava à espera

todo armado de papança:

investidos com pujança,

e com valor assaltados

de uns pratos bem reforçados,

que havíamos de fazer?

foi-nos forçoso morrer

a puros saca-bocados.

Eu não pudera comigo

nem o ventre desbastara,

se um emplastro não botara

todas as noites no embigo:

vira-me em grande perigo,

e na última fadiga,

se uma, e outra rapariga

a Catona, e a Felipa

co emplastro da sua tripa

me não digere a barriga.

Dava-me pouco cuidado,

que aos dous Moucelos galantes

as Moças quisessem antes,

do que a mim cepo cansado:

talvez me punha amuado,

desconfiado, e zeloso,

mas como eles se fartavam,

muitas vezes me largavam

os sobejos do seu gozo.

A terra é um paraíso,

as Moças uns serafins,

nós aliviamos os rins,

porém perdemos o siso:

a Lua em todo o seu riso,

quando luz na ardente Zona,

não é mais galharda, e ampona,

que uma aurora, que ali via,

que sempre me amanhecia

entre os dentes de Catona.

Entrei no Pernamerim

muito são, muito escorreito,

e estou hoje tão sujeito,

que me lastimo de mim:

se hei de ir pior, do que vim,

leve o diabo a Canoa,

que me trouxe sempre à proa

arrimado a um pirajá

por ver uma Tona má,

deixando uma Quita boa.

Eu me vou daqui benzendo,

maldizendo, e praguejando,

quantas me trazem berrando,

e por quantas vou morrendo:

hei de dizer, o que entendo,

e não me hei de arrepender,

pois não vi aqui mulher,

que não fosse em seu fretar

sempre inimiga do dar,

e amiga de receber.

Vou deixando esta ma terra

por outro melhor lugar,

e se a vinda foi por mar,

será a volta por serra:

quem da terra me desterra,

é aquilo, que vim buscar,

putas me hão de desterrar

do mundo, até descobrir

uma, que em vez de pedir

me rogue por lho aceitar.

Fingiu-se triste Catona,

porém não chorou migalha,

que os estilos da canalha

não usa uma sabichona:

mui severa, e mui ampona

tragou esta despedida,

e nisto não foi fingida,

que como eu a enfadava,

em meter ausente, estava

pendente sua alma, e vida.

É verdade, que ao depois

serenou o tempo, e o dia,

e como abrandou Luzia

lhe meti na vinha os bois:

sois uma puta, não sois,

houve questão, houve rinha

entre as negras da cozinha,

estando todas cuidando

que assim me iam praguejando,

coçaram-me a borbulhinha.

Chegou a segunda-feira

dia da minha partida,

e então vi a minha vida

na fadiga verdadeira:

porque chorou de maneira

Luzia, que a ser aurora

tão negra, e tão pecadora,

dissera, que a aurora via,

que quando nos céus se ria,

entonces no Campo chora.

Tanto os cavalos andaram,

que estamos nesta ladeira,

onde foi Quita a primeira,

com quem meus olhos toparam:

té os cavalos rincharam

ledos por lisonjear-me:

aqui vim aliviar-me,

e aqui cantar me ouvireis,

já agora descansareis,

cuidados, de atormentar-me.