DE HUMA QUEDA QUE DEO O POETA EM CASA DESTA BARBORA, ERGUE NOVOS CONCEYTOS À SUA...

By Gregório de Matos Guerra

Fui, Babu, à vossa casa

e indo com sentido em mim,

do sentido combatido

vim finalmente a cair.

Com cair a vossos pés

nenhum resguardo senti,

porque eram vossos sapatos

poucos para me cobrir.

Fui reverente a beijá-los,

e querendo-o conseguir

sobrou boca, e faltou pé,

e assim os beijos perdi.

Que com pé tão pequenino

tão abreviado, e sutil

uma boca desmedida

faz maridagem ruim.

Ergui-me por melhorar,

e então menos consegui,

que se os pés por si me fogem,

vós cos braços me fugis.

Fiquei muito envergonhado,

e em caso tão infeliz

envergonhei-me de ver-vos,

porém não me arrependi.

Mas se o meu sangue, e meus rogos,

vos não podem persuadir,

verta-se o sangue em dilúvios,

e os rogos em frenesi.

Não se quis o meu rogado,

pois no instante, em que vos vi,

se inclinou meu sangue ao vosso,

e rebentou por se unir.

Para queimardes-me o sangue,

me matar, e me afligir

rogos não são necessários,

para admitir-me isso sim.

E tão bom dia, que bastem

para um amor se admitir,

pois rogar, a quem não ama,

é tão mau, como pedir.

Por isso nunca vos peço,

que não sois vós a Beatriz,

que me hei de fazer ditoso

com vossa graga a ceitis.

Pois por dar-vos desenganos

vós, como os dou a mim,

sabei, que hei de sempre amar-vos

uma vez, que bem vos vi.

Pois esse rosto de neve,

esses dedos de jesmim,

esse Maio florescente

de boca, que bota Abris,

Me estão sempre aconselhando,

que vos queira, pois vos quis,

que vos sofra, pois vos amo,

vos busque, pois vos perdi.