DE HUMA QUEDA QUE DEO O POETA EM CASA DESTA BARBORA, ERGUE NOVOS CONCEYTOS À SUA...
Fui, Babu, à vossa casa
e indo com sentido em mim,
do sentido combatido
vim finalmente a cair.
Com cair a vossos pés
nenhum resguardo senti,
porque eram vossos sapatos
poucos para me cobrir.
Fui reverente a beijá-los,
e querendo-o conseguir
sobrou boca, e faltou pé,
e assim os beijos perdi.
Que com pé tão pequenino
tão abreviado, e sutil
uma boca desmedida
faz maridagem ruim.
Ergui-me por melhorar,
e então menos consegui,
que se os pés por si me fogem,
vós cos braços me fugis.
Fiquei muito envergonhado,
e em caso tão infeliz
envergonhei-me de ver-vos,
porém não me arrependi.
Mas se o meu sangue, e meus rogos,
vos não podem persuadir,
verta-se o sangue em dilúvios,
e os rogos em frenesi.
Não se quis o meu rogado,
pois no instante, em que vos vi,
se inclinou meu sangue ao vosso,
e rebentou por se unir.
Para queimardes-me o sangue,
me matar, e me afligir
rogos não são necessários,
para admitir-me isso sim.
E tão bom dia, que bastem
para um amor se admitir,
pois rogar, a quem não ama,
é tão mau, como pedir.
Por isso nunca vos peço,
que não sois vós a Beatriz,
que me hei de fazer ditoso
com vossa graga a ceitis.
Pois por dar-vos desenganos
vós, como os dou a mim,
sabei, que hei de sempre amar-vos
uma vez, que bem vos vi.
Pois esse rosto de neve,
esses dedos de jesmim,
esse Maio florescente
de boca, que bota Abris,
Me estão sempre aconselhando,
que vos queira, pois vos quis,
que vos sofra, pois vos amo,
vos busque, pois vos perdi.