De joelhos
Toda a minha vida em certos dias
Era mais triste do que céus cobertos
De desolantes nostalgias...
E mais que o luto de um corvo,
Por um luar terrivelmente torvo.
E mais que a quente mortalha
De fumo, a sepultar o horror de uma batalha.
E mais que um vento maldito
Que varresse uma estrela no infinito.
E mais do que um cemitério;
Mais do que esse misterioso Império...
Mais do que esse Império de cousas
Em plena transição, sob a mudez das lousas...
E mais, imagem querida,
Do que a voz que clama uma crença perdida,
Como a alma fria de um buda
Rezando à lua inteiramente muda.
Mas eis que me vens, Maria
Por um maio de sol, cheio de pedraria.
E bem que lembras um lótus
Vindo através de séculos remotos...
E abres em mim uma ânsia
De vivo, extremo amor, de consolo e fragrância;
Tu, tendal aberto em flores
Na estrada negra e atroz dos meus sonhos e dores;
Tu, ó fonte de água pura,
Onde lava o luar saudoso da amargura;
Tu, ó campo de perfumes,
No qual vivem meus sonhos e ciúmes;
Braço forte, forte e eterno
Braço, a amparar-me neste augúrio inferno,
E ao me amparares ao braço
Vejo no teu olhar um bálsamo ao cansaço.
E vejo misteriosas asas
De aves que eu nunca vi pelo beiral das casas.
Asas que eu só ao fitá-las
Nem sei com que outras compará-las.
Asas brancas, que me chamam
A outros céus que de outros sóis se inflamam.
Asas brancas como a prata
Dos altares dos quais o incenso se desata.
Asas brancas e benditas,
Descidas do alto azul das plagas infinitas.
Asas brancas, de concórdia,
Como as bandeiras da misericórdia.
De um vivo amaino de ninho;
E mais frescas que a própria flor do linho.
E tão repletas de encantos
Como as alvas liriais e fúlgidas dos santos.
E tão carinhosas como
A sombra que no chão desenha o cinamomo.
E tão banhadas de afagos
Como a alma estelar dos três Reis Magos.
Por certo as asas dos sonhos
Desses teus olhos garços e risonhos.
Dos sonhos no Amor vagando;
— Asas por sobre um mar divinamente brando.
Dos sonhos as asas de ouro
Que do aroma e da cor fazem fremente coro.
E então toda a minha lira
Lembra uma asa na Torre de Safira.
E ao tê-la junto ao peito
Nas suas cordas toco satisfeito.
E a minha lira se veste
Dos roseirais em flor da abóbada celeste!
Só um rei, na antiguidade,
Uma lira teria, na verdade.
E por ter tais esplendores
A minha lira nem recorda as dores!
Tudo que era sofrimento
Vê para longe rolar bem como a folha ao vento.
Então começo a sonhar;
E, no sonho, ajoelhado, eis-me, agora, a rezar.
E das preces a Primeira,
Vem do teu seio aberto em flor de laranjeira,
E vem depois, a Segunda,
A branca luz que os olhos teus inunda.
E a Terceira vem do aroma
Que tua boca eternamente assoma.
E a Quarta dos teus cabelos
Que me cercam de enleio e profundos desvelos.
E a Quinta, das mãos em palma,
Que rezam pelas ânsias da minha alma.
E, assim, uma por uma,
Vêm leves como é leve a branca espuma.
Orações do áureo sacrário
Do nosso grande amor profundo, extraordinário.
Orações do amor bendito,
Que é de tudo que é santo o mais fúlgido rito.
Que é de tudo quanto quero
O único altar que adoro, que venero.
O único altar onde estás
Agora, e em todo tempo te verás.
Tu, tendal aberto em flores,
Na estrada negra e atroz dos meus sonhos e dores.
Tu, ó fonte de água pura,
Onde lavo o luar saudoso da amargura.
E jamais voltou, querida.
A ser o que era dantes, esta vida.
E só tu bem sabes quanto
Amargo e cruel me fora na alma o pranto.
Só tu sabes com certeza
Em que brumas vivi, cavado de tristeza.
E tão banhadas de afagos
Como a alma estelar dos três Reis Magos.
Por certo as asas dos sonhos
esses teus olhos garços e risonhos.
Dos sonhos no Amor vagando;
— Asas por sobre um mar divinamente brando.
Dos sonhos as asas de ouro
Que do aroma e da cor fazem fremente coro.
E então toda a minha lira
Lembra uma asa na Torre de Safira.
E ao tê-la junto ao peito
Nas suas cordas toco satisfeito.
E a minha lira se veste
Dos roseirais em flor da abóbada celeste!
Só um rei, na antiguidade,
Uma lira teria, na verdade.
E por ter tais esplendores
A minha lira nem recorda as dores!
Tudo que era sofrimento
Vê para longe rolar bem como a folha ao vento.
Então começo a sonhar;
E, no sonho, ajoelhado, eis-me, agora, a rezar.
E das preces a Primeira,
Vem do teu seio aberto em flor de laranjeira,
E vem depois, a Segunda,
A branca luz que os olhos teus inunda.
E a Terceira vem do aroma
Que à tua boca eternamente assoma.
E a Quarta dos teus cabelos
Que me cercam de enleio e profundos desvelos.
E a Quinta, das mãos em palma,
Que rezam pelas ânsias da minha alma.
E, assim, uma por uma,
Vêm leves como é leve a branca espuma.
Orações do áureo sacrário
Do nosso grande amor profundo, extraordinário.
Orações do amor bendito,
Que é de tudo que é santo o mais fúlgido rito.
Que é de tudo quanto quero
O único altar que adoro, que venero.
O único altar onde estás
Agora, e em todo tempo te verás.
Tu, tendal aberto em flores,
Na estrada negra e atroz dos meus sonhos e dores.
Tu, ó fonte de água pura,
Onde lavo o luar saudoso da amargura.
E jamais voltou, querida.
A ser o que era dantes, esta vida.
E só tu bem sabes quanto
Amargo e cruel me fora na alma o pranto.
Só tu sabes com certeza
Em que brumas vivi, cavado de tristeza.
Hoje vives ao meu lado,
Neste Ascetério espiritualizado.
Em cuja luz, em tumultos,
Passam suavemente os vultos;
Os vultos de asas douradas
Das nossas filhas para sempre amadas!
De nossas filhas formosas;
— Almas feitas de luz e de rimas gloriosas
Que a morte chamou da terra,
E em seu grande solar eternamente encerra.
De onde todas, todas elas,
Sob o clarão bendito das estrelas,
Virão, mais tarde, ou mais cedo,
A este triste, medonho e sinistro degredo
Afim de nos amparar
Na hora em que tivermos de viajar
Para onde, as nossas filhas,
Sob uma luz que perenal flutua,
Rumaram a umas ilhas,
Na misteriosa gôndola da lua.