De joelhos

By Juvêncio de Araújo Figueredo

Toda a minha vida em certos dias

Era mais triste do que céus cobertos

De desolantes nostalgias...

E mais que o luto de um corvo,

Por um luar terrivelmente torvo.

E mais que a quente mortalha

De fumo, a sepultar o horror de uma batalha.

E mais que um vento maldito

Que varresse uma estrela no infinito.

E mais do que um cemitério;

Mais do que esse misterioso Império...

Mais do que esse Império de cousas

Em plena transição, sob a mudez das lousas...

E mais, imagem querida,

Do que a voz que clama uma crença perdida,

Como a alma fria de um buda

Rezando à lua inteiramente muda.

Mas eis que me vens, Maria

Por um maio de sol, cheio de pedraria.

E bem que lembras um lótus

Vindo através de séculos remotos...

E abres em mim uma ânsia

De vivo, extremo amor, de consolo e fragrância;

Tu, tendal aberto em flores

Na estrada negra e atroz dos meus sonhos e dores;

Tu, ó fonte de água pura,

Onde lava o luar saudoso da amargura;

Tu, ó campo de perfumes,

No qual vivem meus sonhos e ciúmes;

Braço forte, forte e eterno

Braço, a amparar-me neste augúrio inferno,

E ao me amparares ao braço

Vejo no teu olhar um bálsamo ao cansaço.

E vejo misteriosas asas

De aves que eu nunca vi pelo beiral das casas.

Asas que eu só ao fitá-las

Nem sei com que outras compará-las.

Asas brancas, que me chamam

A outros céus que de outros sóis se inflamam.

Asas brancas como a prata

Dos altares dos quais o incenso se desata.

Asas brancas e benditas,

Descidas do alto azul das plagas infinitas.

Asas brancas, de concórdia,

Como as bandeiras da misericórdia.

De um vivo amaino de ninho;

E mais frescas que a própria flor do linho.

E tão repletas de encantos

Como as alvas liriais e fúlgidas dos santos.

E tão carinhosas como

A sombra que no chão desenha o cinamomo.

E tão banhadas de afagos

Como a alma estelar dos três Reis Magos.

Por certo as asas dos sonhos

Desses teus olhos garços e risonhos.

Dos sonhos no Amor vagando;

— Asas por sobre um mar divinamente brando.

Dos sonhos as asas de ouro

Que do aroma e da cor fazem fremente coro.

E então toda a minha lira

Lembra uma asa na Torre de Safira.

E ao tê-la junto ao peito

Nas suas cordas toco satisfeito.

E a minha lira se veste

Dos roseirais em flor da abóbada celeste!

Só um rei, na antiguidade,

Uma lira teria, na verdade.

E por ter tais esplendores

A minha lira nem recorda as dores!

Tudo que era sofrimento

Vê para longe rolar bem como a folha ao vento.

Então começo a sonhar;

E, no sonho, ajoelhado, eis-me, agora, a rezar.

E das preces a Primeira,

Vem do teu seio aberto em flor de laranjeira,

E vem depois, a Segunda,

A branca luz que os olhos teus inunda.

E a Terceira vem do aroma

Que tua boca eternamente assoma.

E a Quarta dos teus cabelos

Que me cercam de enleio e profundos desvelos.

E a Quinta, das mãos em palma,

Que rezam pelas ânsias da minha alma.

E, assim, uma por uma,

Vêm leves como é leve a branca espuma.

Orações do áureo sacrário

Do nosso grande amor profundo, extraordinário.

Orações do amor bendito,

Que é de tudo que é santo o mais fúlgido rito.

Que é de tudo quanto quero

O único altar que adoro, que venero.

O único altar onde estás

Agora, e em todo tempo te verás.

Tu, tendal aberto em flores,

Na estrada negra e atroz dos meus sonhos e dores.

Tu, ó fonte de água pura,

Onde lavo o luar saudoso da amargura.

E jamais voltou, querida.

A ser o que era dantes, esta vida.

E só tu bem sabes quanto

Amargo e cruel me fora na alma o pranto.

Só tu sabes com certeza

Em que brumas vivi, cavado de tristeza.

E tão banhadas de afagos

Como a alma estelar dos três Reis Magos.

Por certo as asas dos sonhos

esses teus olhos garços e risonhos.

Dos sonhos no Amor vagando;

— Asas por sobre um mar divinamente brando.

Dos sonhos as asas de ouro

Que do aroma e da cor fazem fremente coro.

E então toda a minha lira

Lembra uma asa na Torre de Safira.

E ao tê-la junto ao peito

Nas suas cordas toco satisfeito.

E a minha lira se veste

Dos roseirais em flor da abóbada celeste!

Só um rei, na antiguidade,

Uma lira teria, na verdade.

E por ter tais esplendores

A minha lira nem recorda as dores!

Tudo que era sofrimento

Vê para longe rolar bem como a folha ao vento.

Então começo a sonhar;

E, no sonho, ajoelhado, eis-me, agora, a rezar.

E das preces a Primeira,

Vem do teu seio aberto em flor de laranjeira,

E vem depois, a Segunda,

A branca luz que os olhos teus inunda.

E a Terceira vem do aroma

Que à tua boca eternamente assoma.

E a Quarta dos teus cabelos

Que me cercam de enleio e profundos desvelos.

E a Quinta, das mãos em palma,

Que rezam pelas ânsias da minha alma.

E, assim, uma por uma,

Vêm leves como é leve a branca espuma.

Orações do áureo sacrário

Do nosso grande amor profundo, extraordinário.

Orações do amor bendito,

Que é de tudo que é santo o mais fúlgido rito.

Que é de tudo quanto quero

O único altar que adoro, que venero.

O único altar onde estás

Agora, e em todo tempo te verás.

Tu, tendal aberto em flores,

Na estrada negra e atroz dos meus sonhos e dores.

Tu, ó fonte de água pura,

Onde lavo o luar saudoso da amargura.

E jamais voltou, querida.

A ser o que era dantes, esta vida.

E só tu bem sabes quanto

Amargo e cruel me fora na alma o pranto.

Só tu sabes com certeza

Em que brumas vivi, cavado de tristeza.

Hoje vives ao meu lado,

Neste Ascetério espiritualizado.

Em cuja luz, em tumultos,

Passam suavemente os vultos;

Os vultos de asas douradas

Das nossas filhas para sempre amadas!

De nossas filhas formosas;

— Almas feitas de luz e de rimas gloriosas

Que a morte chamou da terra,

E em seu grande solar eternamente encerra.

De onde todas, todas elas,

Sob o clarão bendito das estrelas,

Virão, mais tarde, ou mais cedo,

A este triste, medonho e sinistro degredo

Afim de nos amparar

Na hora em que tivermos de viajar

Para onde, as nossas filhas,

Sob uma luz que perenal flutua,

Rumaram a umas ilhas,

Na misteriosa gôndola da lua.