DE PETRÔNIO A CÉSAR
— “Sei que teu nobre coração espera
“Por mim com impaciência a todo o instante,
“Que só minha presença é que pudera
“Iluminar teu lívido semblante;
“Que tu, que de favores me cumulas,
“Me nomearas prefeito com agrado
“E Tigelinus guardados de mulas,
“Para o que pelos deuses foi criado.
“Mas desculpa-me, César! Eu te juro
“Pelos manes de Sêneca e Agripina
“Que embalde ver-te sem horror procuro:
“Um invencível nojo me domina!
“Passada a juventude, o mundo é findo:
“A vida — série de emoções supremas —
“É um tesoiro do qual, amando e rindo,
“Já extrai as mais preciosas gemas...
“Há na existência cousas que eu não posso
“Aturar por mais tempo: é-me impossível!
“Todas as taças do viver de moço
“Já esgotei num gozo inconcebível.
“Não vás pensar que me afligiu o incêndio
“Da orgulhosa cidade das colinas,
“Que cobriste de opróbrio e vilipêndio
“E transformaste num montão de ruínas.
“Que importa a mim que só produzas mortes,
“Que despedaces corações humanos
“E para as sombras do Érebo deportes
“Os mais conspícuos cidadãos romanos?
“Não! ó neto de Cronos! Outros atos
“Não se podiam esperar de Nero,
“A não ser o extermínio, assassinatos:
“Não! de ti outras cousas não espero!
“Mas, escutar mais anos o teu canto,
“A dura voz de pífano rachado,
“Ver o teu ventre de causar espanto
“Girar na dança pírrica agitado;
“E ver-te recitar com indecência
“As estrofes banais de tua lavra,
“São cousas que eu não posso com paciência
“Nem mais um dia suportar. Palavra!
“Para livrar-me de torturas tantas
“Eu vou dormir em púrpuras imerso.
“Roma tapa os ouvidos quando cantas
“E chama-te imbecil todo o universo.
“Eu, que tenho apurados os sentidos,
“Por tua causa enrubescer não quero:
“Antes ouvir os rábidos latidos
“Do furioso tricéfalo Cerbero!
“Envenena, mas cítara não toques!
“Incendeia cidades, mas não cantes!
“Mata, mas com teus versos não provoques
“Irreprimíveis risos humilhantes!
“Goza saúde, dá festins de sangue
“Àqueles que, ao te ver, dobram os joelhos:
“— Tais são os votos que eu, Petrônio, exangue,
“Faço ao enviar-te os últimos conselhos...”
Tremem todos! A carta infunde horror funéreo!
Parece que estão vendo um fantasma gorgôneo!...
Menos doeria a Nero a destruição do Império
Que essa declaração sincera de Petrônio.
O Árbitro da elegância então estende o braço
Ao esculápio que abre a veia: flui o sangue
Deixando no coxim um mais vermelho traço,
Enquanto Eunícia, que lhe ampara a fronte langue,
Balbucia: “— Senhor, julgaste que eu seria
Capaz de abandonar-te? Ainda que me fosse
Oferecido o Império eu não hesitaria
Em seguir-te. Ao teu lado a morte será doce!”
Nenhum receio agita a inveja das Camenas
Que afronta sem temor do Tártaro o castigo,
E Petrônio, abraçando a ebúrnea flor de Atenas,
Segreda com ternura extrema: — “Vem comigo...”
E do braço de Eunícia, aberto a um golpe, ardente
O sangue vai manando em fios de escarlata:
A um novo aceno de Petrônio, suavemente
Harpejam em surdina as cítaras de prata...
Num timbre festival soa de manso um hino
Do rouxinol de Téos, do meio Anacreonte,
E, lânguido, a sorrir, o esteta peregrino
Se apóia à loira grega unindo fronte a fronte...
Cala-se a voz dos instrumentos orquestrantes...
Despejam os rítons vinhos de Chipre e Samos,
Os fâmulos, de pé, com gestos elegantes,
Servem frutos do Oriente inda a pender dos ramos.
Depois de palestrar alegre e indiferente,
Petrônio ordena (porque o vai prostrando o sono)
Que lhe liguem a veia. E dorme calmamente,
Mais feliz do que um rei na veludez do trono!
Ao despertar desata um riso satisfeito,
Um riso de ventura, um riso de delícia,
Vendo serena, reclinada no seu peito,
Como uma grande flor, a cabeça de Eunícia...
Gorgeiam novamente as cítaras maviosas
Numa leve surdina, em cristalino choro,
Enquanto brandamente as vozes melodiosas
Cantam um hino que é das Piérides um coro.
Petrônio, cada vez mais pálido, sonhando
Aos acordes finais do cântico apolíneo,
Se volta para os seus convivas, elevando
Pela vez derradeira a voz num vaticínio:
— “Meus amigos, deveis reconhecer que finda
Conosco...” e a sua voz expira um harpejo:
Mas, num supremo esforço, ao seio aperta ainda
A grega escultural... para morrer num beijo!...
Pela sala em silêncio agora mergulhada,
— Como um contínuo aflar de asas de borboletas —
Da rede d’oiro presa à abóbada doirada,
Continua a cair a chuva de violetas...