DE UNS OLHOS SE VIU RENDIDO

By Gregório de Matos Guerra

Para retratar uns olhos

Cupido se fez pintor,

desfez o céu para tinta

moeu para luz o Sol.

De uns olhos se viu rendido

Amor, que os arpões quebrou,

porque afrontados julgou

arpões doutro arpão vencido:

cego, e turbado Cupido

guiado de seus antolhos

trilha espinhos, pisa abrolhos,

e por curar seu cuidado

um pincel pede emprestado

Para retratar uns olhos.

Para uns olhos tão brilhantes

buscava o melhor pincel,

negou-lhe Apeles cruel,

piedoso lhe deu Timantes:

como Mestres tão prestantes

puseram de morte cor,

olhos, que vencem a Amor:

nesta pena, que o soçobra,

para colorir a obra

Cupido se fez pintor.

Sempre eu vi que aos amadores

nada falta em bom primor:

porém hoje ao mesmo Amor

para pintar faltam cores:

ele perdeu as melhores

em ter a presença extinta

dos olhos belos, que pinta,

cuja cor é celestial,

e por lhe dar natural

Desfez o céu para tinta.

Para cópia tão divina,

como Amor a imaginou,

todo o aparelho tirou

dessa esfera cristalina:

excedia a ultramarina

cor desse azul arrebol,

e do divino farol

sendo precisa a luz pura,

por dar claros à pintura

Moeu para luz o Sol.