DECANTA OS ESTRAGOS QUE NO BOQUEIRÃO DE SANTO ANTONIO FAZIA HUM SURUCUCÚ, EM QUE...
Acabou-se esta cidade,
Senhor, já não é Bahia,
já não há temor de Deus,
nem d’El-Rei nem da Justiça.
Lembra-me, que há poucos anos,
inda não há muitos dias,
que para qualquer função
de um crime a prisão fervia.
Iam por esse sertão
ao centro de Jacobina
prender a algum matador,
inda que fosse a espadilha.
E hoje dentro na praça
nas barbas da Infantaria,
nas bochechas dos Granachas
com polé, e forca à vista,
Que esteja um surucucu
com soberana ousadia
feito Parca das idades,
cortando os fios às vidas:
Com tantas mortes às costas,
e que não haja uma rifa
de paus, que ao tal matador
o Basto lhe ponha em cima!
É muito brabo rigor
o desta Cobra atrevida,
que esteja na estrada pública
fazendo assaltos à vista.
Onde está Gaspar Soares,
que não vai a esposa fita
no Lazão lançar-lhe a gorra,
e metê-la na enxovia?
Se está no mato emboscada,
no seu mocambo metida,
mandem-lhe um terço ligeiro
de Infantes de Henrique Dias
Se dizem, que está na peça,
dêem-lhe fogo à culambrina,
já que faz peças tão caras,
custe-lhe esta peça a vida.
Vão quatro, ou seis artilheiros
cavalgar-lhe a artilharia,
porque sendo noite dê
fogo a toda cousa viva.
Tira com balas ervadas,
a que não há medicina,
porque as traz sempre na boca
com venenosa saliva.
O caso é monstrosidade,
porém não é maravilha,
que hajam cobras, e lagartos
entre tanta sevandija.
Só digo, que é boa peça,
porque na peça escondida
vela na peça de noite
dorme na peça de dia.