DECANTA OS ESTRAGOS QUE NO BOQUEIRÃO DE SANTO ANTONIO FAZIA HUM SURUCUCÚ, EM QUEM PASSAVA DESDE HUMA PEÇA DESCALVAGADA, ONDE SE RECOLHIA DE DIA.

By Gregório de Matos Guerra

Acabou-se esta cidade,

Senhor, já não é Bahia,

já não há temor de Deus,

nem d’El-Rei nem da Justiça.

Lembra-me, que há poucos anos,

inda não há muitos dias,

que para qualquer função

de um crime a prisão fervia.

Iam por esse sertão

ao centro de Jacobina

prender a algum matador,

inda que fosse a espadilha.

E hoje dentro na praça

nas barbas da Infantaria,

nas bochechas dos Granachas

com polé, e forca à vista,

Que esteja um surucucu

com soberana ousadia

feito Parca das idades,

cortando os fios às vidas:

Com tantas mortes às costas,

e que não haja uma rifa

de paus, que ao tal matador

o Basto lhe ponha em cima!

É muito brabo rigor

o desta Cobra atrevida,

que esteja na estrada pública

fazendo assaltos à vista.

Onde está Gaspar Soares,

que não vai a esposa fita

no Lazão lançar-lhe a gorra,

e metê-la na enxovia?

Se está no mato emboscada,

no seu mocambo metida,

mandem-lhe um terço ligeiro

de Infantes de Henrique Dias

Se dizem, que está na peça,

dêem-lhe fogo à culambrina,

já que faz peças tão caras,

custe-lhe esta peça a vida.

Vão quatro, ou seis artilheiros

cavalgar-lhe a artilharia,

porque sendo noite dê

fogo a toda cousa viva.

Tira com balas ervadas,

a que não há medicina,

porque as traz sempre na boca

com venenosa saliva.

O caso é monstrosidade,

porém não é maravilha,

que hajam cobras, e lagartos

entre tanta sevandija.

Só digo, que é boa peça,

porque na peça escondida

vela na peça de noite

dorme na peça de dia.