DEDICA HUM ESTUDANTE HUMAS CONCLUZÕES AO DITO COM O BRAZÃO DOS NEYVAS NA FAXADA:...

By Gregório de Matos Guerra

Digam, os que argumentaram,

qual mais desaforo indica,

quem as conclusões dedica,

ou a quem se dedicaram:

se as torres, que lhe gravaram

com tanta magnificência

não são da sua ascendência,

posto que dos Neivas são,

concedo-lhe a conclusão,

mas nego-lhe a consequência.

Concedo, que aquele escudo

com gravados torreões

seja dos Neivas brasões,

mas não de um Neiva orelhudo:

que homem pode haver sisudo,

que vendo aquele jumento

não conclua o argumento,

de que os seus timbres, e duelos

não são torres, são castelos,

porém castelos de vento.

A um cavalheiro vilão

estas armas lhe hão de dar,

sobre escudo verde-mar

uma aguilhada, e um podão:

item porque lá em Milão

morando na casa alheia

foi Lacaio de libréia,

passa-aqui de rocinante,

lhe dão em campo brilhante

uma almofaça, e uma peia.

Pelo torreão guerreiro

dão-lhe em jurídica forma,

na praia uma plaraforma,

onde seja aguardenteiro:

e porque vai a escudeiro

por casar co’a Indiana

com dote de porcelana,

e enxoval de canequim,

lhe dão por armas enfim

um chuço, uma partasana.

Desaforo tão insano

sofrerão outras nações,

que dedique as conclusões

um magano a outro magano?

que sendo costume lhano

oferecer, e dedicar

ao Prelado, ao Titular,

ao Príncipe, ao Monarca,

se veja uma suja alparca

em tão subido espaldar?

Mas enfim, que lhe importou

ver-se assim entronizado,

se tão vil é o dedicado,

como quem lhe dedicou?

tudo o diabo levou,

a honra, a dedicatória

a honra tornou-se escória,

a dedicatória em mijo:

o Brasil se ri de riso,

aqui paz, e depois glória.