DEDICATORIA ESTRAVAGANTE QUE O POETA PAZ DESTAS OBRAS AO MESMO GOVERNADOR SATYRIZADO.

By Gregório de Matos Guerra

Desta vez acabo a obra,

porque é este o quarto tomo

das ações de um Sodomita,

dos progressos de um fanchono.

Esta é a dedicatória,

e bem que preverto o modo,

a ordem preposterando

dos prólogos, os prológios.

Não vai esta na dianteira,

antes no traseiro a ponho,

por ser traseiro o Senhor,

a quem dedico os meus tomos.

A vós, meu Antônio Luís,

a vós, meu Nausau ausônio,

assinalado do naso

pela natura do rosto:

A vós, merda dos fidalgos,

a vós, escória dos Godos,

Filho do Espírito Santo,

E bisneto de um caboclo:

A vós, fanchono beato,

Sodomita com bioco,

e finíssimo rabi

sem nascerdes cristão-novo:

A vós, cabra dos colchões,

que estoqueando-lhe os lombos,

sois fisgador de lombrigas

nas alagoas do olho:

A vós, vaca sempiterna

cosida, assada, e de molho,

Boi sempre, Galinha nunca

in secula seculorum:

A vós, ó perfumador

do vosso pagem cheiroso,

para vós algália sempre,

para vós sempre mondongo:

A vós, ó enforcador,

e por testemunhas tomo

os Irmãos da Santa Casa,

que lhes carregam os ossos:

Pois no dia dos Finados,

quando desenterram mortos

também murmuram de vós

pela grã carga dos ombros:

A vós, ilustre Tucano,

mal direito, e bem giboso,

pernas de rolo de pau,

antes de o levar ao torno:

A vós: basta tanto vós,

porque este insensato Povo

vendo, que por vós vos trato,

cuidará, que sois meu moço:

A vós dedico, e consagro

os meus volumes, e tomos,

defendei-os, se quiserdes,

e se não, vai nisso pouco.